A Carne do Metrô

Type of Work: Fiction Book
Details: Katarina Kartonera, 53pp.
Year: 2009.

Composed of stories written when the author was in his early twenties and published a few years later as a book, “A Carne do Metrô” compiles some of Lopes de Barros’ first explorations in art and literature. It is a work full of social criticism combined with profound disillusionment.

The book includes the award-winning short story “A Carne do Metrô,” which was one of the winners of “Cultural Contest Caderno 2 in the 450 Years of São Paulo,” organized by Jornal O Estado de São Paulo in 2004. The awarding committee was composed by Antonio Medina Rodrigues (University of São Paulo), Moacir Amâncio (University of São Paulo), Yara Frateschi Vieira (Unicamp) e Alcir Pécora (Unicamp).

The short story can be read bellow in its original Portuguese version:

A CARNE DO METRÔ

Dezembro. Abatia-se o crepúsculo sombreando as cinzentas avenidas de São Paulo. Abaixo do asfalto, milhares de trabalhadores exaustos buscavam o metrô que os levaria ao lar. Não havia espaço para todos. Dentro dos vagões, os indivíduos apertavam-se, esfregando-se uns nos outros, somente não copulando graças ao jeans defensor. Descendo as escadas congestionadas, surgia um homem gordo que esbarrava seu gigantesco corpo nas mulheres e crianças. Mal passou pelas catracas. Com muito esforço, tomou o trem para o Tietê. A barriga imensa ocupava folgadamente o lugar de mais três. Comprimido era pelos outros passageiros, que o encaravam com ódio. O calor crescia tornando-se insuportável. Bagas de suor azedo brotavam da tez pálida do gordo. A camisa encharcada molhava os companheiros de viagem. Começou a sentir-se tonto, indisposto, claustrófobo. A visão embaçou-se-lhe. Desmaiou. Mas não caiu. Não havia espaço. Ficou sustentado pelo corpo dos outros passageiros. Ninguém percebeu seus olhos cerrados, até que o gordo passou a sofrer um ataque epilético. Tremia como um porco agônico. As pessoas, então, espremeram-se mais, mais. Ele, pouco a pouco, desabou no chão metálico, debatendo-se. Os passageiros, aflitos com a situação, decidiram ajudar. Na primeira parada, arremessaram o gordo para fora do vagão. Tarefa difícil, oito pessoas. Abandonaram-no rapidamente. Em seguida, sua tremedeira cessou e ele tornou-se uma massa inerte. Morrera. Com o corpo rígido sobre as listras, que marcavam a zona de embarque, atrapalhou o fluxo. Esse foi o último incômodo que seu peso ocasionou. 

Uma faxineira observou o problema e resolveu cumprir com o seu dever. Era uma mulher extraordinariamente musculosa. Repousou a vassoura num pilar robusto e aproximou-se a passos sinuosos. Ergueu o corpo do gordo e levou-o em seus braços, de maneira ligeira, para baixo das escadas que davam acesso à estação. Ajeitou o cadáver cuidadosamente, como se desejasse escondê-lo. Ajoelhou-se comedida, cheirou o defunto e lambeu freneticamente o sangue morno que lhe escorria da orelha.

– Graças ao meu bom Deus te encontrei – disse com a saliva espumando em seus lábios.

O morto adiposo descansou tranqüilamente em seu esconderijo. À meia-noite, quando o metrô completa sua jornada, a mulher e todos os outros faxineiros reuniram-se sob as escadas, resplandecentes de um vazio inimaginável há algumas horas. Nessa noite, os cumprimentos entre eles foram esquecidos, pois os que chegavam assustavam-se logo com a imensidão do corpo que ali jazia.

– Vejam – disse um dos faxineiros, apontando a carcaça com uma mão e tapando a boca escancarada com a outra. – É muito grande. Parabéns, minha princesa!

– Não foi nada. Esse caiu do céu – observou a mulher, demonstrando modéstia.

Todos, então, retiraram as facas que guardavam numa discreta bainha pendurada na cintura. Despiram o morto, rasgando suas encardidas roupas, e, logo em seguida, começaram a retalhar-lhe a imensa quantidade de gordura amarelecida. Reuniram-se, depois, em círculo. Espetaram a carne nas pontas afiadas das vassouras, riram bastante, e assaram-na numa fogueira improvisada.


Catalog of Katarina Kartonera Press


Download PDF of the short story as published by Jornal Estadão in January 24, 2004.


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