Sinopse/Synopsis
O Corpo narra a história de dois homens que têm que lidar com um cadáver e ao mesmo tempo com seus próprios corpos e suas vívidas significações. O corpo está morto, mas igualmente vivo nas limitações sem fronteiras que ele inerentemente possui, buscando, na profundeza desconhecida, aquilo que pode, por um momento ínfimo, escapar do ritmo silencioso do inevitável, resultando numa queda infinita e brutal dentro do trivial. Nessa queda, personagens perdem-se numa conversa ociosa, não agindo frente à situação desesperada que têm em mãos. A batalha da situação que os acossa é apagada pelo desamparo na projeção de seus futuros: escapar está profundamente instalado dentro da consciência, e a consciência se acha nas fronteiras do corpo. A rígida nulidade inarticulada no centro de nossas desesperações coletivas nos leva à vulgaridade e singularidade concomitantes de nossa própria existência: cegamente definhando, balançando nossos esqueletos de um lado para outro, descansando nossas cabeças sobre os travesseiros da ignorância e degradação, a violência de nossa ávida necessidade de constante compensação por nossas inabilidades e deficiências. O corpo acéfalo, que de fato articula seus membros, tem inscrito em sua paisagem, desde o momento de sua concepção, a certeza da morte. Esse “corpo morto” na trama é a própria armadilha apresentada pela impossibilidade de visualização clara dessa certeza desfocada. E como tal, os personagens chafurdam-se em um nada infinito, desprovido de um tempo mensurável, sujeitos a uma alteração entre a consciência da gravidade da situação e o escapismo da trivialidade.
O Corpo tells the story of two men having to deal with a dead body and concomitantly with their own bodies and their vivid significations. The body is dead but very much alive in the boundless limitations they inherently possess, searching in the unknown depth for that which can, for a meager moment, escape the noiseless pacing of the inevitable, resulting in a brutal and endless fall upon the trivial. In this fall, the characters lose themselves in idle conversation, doing nothing about the desperate situation at hand. The battle of the situation that assails them is paled by the helplessness in their projected solutions: escape is deeply installed within consciousness, and consciousness found in the boundaries of the body. The rigid inarticulate nullity in the core of our collective desperation turns us to the simultaneous singularity and vulgarity of our own experience: blindly dwindling, dangling our rigid skeletons to and from, easing our heads upon the pillows of ignorance and degradation, the violence of our eager need for constant compensations for our own inabilities, our own disabilities. This headless body that does articulate its limbs has inscribed in its landscape from the moment of conception the certainty of death. This “dead body” in the story is the very entrapment presented by the impossibility of clear visualization of this blurry certainty. And as such, the characters wallow in an endless nothingness, devoid of measurable time, subjected to an alternation between consciousness of the situation’s gravity and the escapism of triviality.
Ficha Técnica/Film Credits
Elenco/Cast
Luiz Henrique Cudo [como Leonardo]
João Pedro Garcia [como Carlos]
George França [como Corpo]
Trilha Sonora/Soundtrack
João Pedro Garcia
Thiago Kremer Pizzetti
Stanley Tool Trio
Designer
Igor Almeida
Edição/Film Editing
Rodrigo Lopes de Barros
João Pedro Garcia
Roteiro/Screenplay
João Pedro Garcia
Direção/Director
Rodrigo Lopes de Barros
Agradecimentos/Special Thanks
Luizete Guimarães Barbosa; Alai Garcia Diniz; Henrique Finco; Ronaldo Lima; Guto Lima; Diego Cervelin; Zulma Coltinho; Anne Girondi; Alexandre Nodari; Augusto Garcia; Leonardo D’Avila; Joe Pierce; Flávia Cera; Maria del Mar Bassa Vanrell; Noah Stroehle; Blah; Renata Barros; UFSC (LLE)
Ano/Year
2007 (filmado/shot) / 2012 (finalizado/completed)
Festivais/Festivals
Oaxaca FilmFest, Official Selection, 2012.
Boston Open Screen, 2014.
Pollygrind Underground Film Festival, Best Foreign Language Short, 2014.
Nota do Diretor/Director’s Statement
João Pedro Garcia saw my first movie, Há vida após a modernidade, an experimental documentary of almost three hours and it seemed that those assemblages with pieces of films got his attention. “I have a script…”, he said, “…of a comedy.” “It is not my business,” I replied. He sent me the text anyway. I read it and liked the idea of two men in an apartment with a body, two men that cannot decide or do anything, but the parts in which they joke about the fact made me thought the movie was to be directed by another person. One day I got a call from him: “I have everything, actors, camera, locations, and even a body… we will start in two weeks.” Well, I had worked in project of adapting a book of the Brazilian author Salim Miguel into a movie script a few years before. The basic idea was the same: two men in an apartment. But it was a very heavy movie, not a comedy… So I decided to apply in O Corpo some of the motifs of that past project. “Ok, but I will change some stuff,” I said. I moved the story to a drama but left most of the dialogs, which turned them into a non-sense conversation. However, this lack of sense was what gave the character of the film. The moment of decision, the moment in which one has to be sovereign, is like that: not a comedy, not a drama, just something that cannot be understood, it has spheres that escape comprehension.
Crítica/Critique
A situação beckettiana dos personagens sufoca, angustia a gente. Os ângulos da câmera tornam os diálogos ainda mais tétricos. O contraponto metafórico entre o defunto e o boi, encenado pelas “meditações” verbais e corporais dos personagens, é um dos aspectos mais contundentes do filme, transporta a gente para o cerne do esvaziamento do humano. A “razão” para terem matado o cara reside nesse macabro sentimento de poder desencadeado por um canivete… E a devoração da carne (do defunto, do boi?) torna-se algo destituído de qualquer dimensão ritual, a não ser o ato propriamente dito de comer. Mas que deixa a gente pensando, na verdade, que os personagens, inadvertidamente, acabam realizando justamente um ritual, um ritual autofágico… O problema de fundo (livrar-se do cadáver ou, mais sugestivamente, do corpo) aponta para um enigma difícil (provavelmente impossível) de decifrar e que se esquiva a qualquer tentativa de verbalização, algo como uma experiência que não chega nunca a fazer sentido.
Guilherme Trielli Ribeiro
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O que fazer com o corpo?
Esta é a pergunta que se repete incessantemente neste filme. O corpo de um porco chorando, a lavagem dos restos do corpo em um necrotério, um corpo que come, que dança, simula uma luta, que grita. Corpos que querem expulsar seus demônios depois de acontecer o inevitável com um pequeno objeto. São várias possibilidades que, no entanto, não respondem a necessidade de dois amigos sentados em uma sala que discutem quase metafisicamente o destino de um corpo morto: boi tem alma? Ele só existe porque o matamos para comer? Tudo começa com uma similaridade entre o porco, o boi e o humano quando se aventa a hipótese do esquartejamento. Um corpo dilacerado seria mais fácil de carregar. E não é outro corpo senão este dilacerado que aparece a todo tempo falando deste corpo: o rosto, a parte que singulariza o humano, ocupa uma posição central no filme que fala de um corpo que não aparece, que só é evocado como um fantasma. Como encarar um corpo morto? Como encarar a própria morte? Ao contrário de Carmem e Beatriz, do conto O Corpo de Clarice Lispector, que levam Xavier para o jardim e lá o enterram, Leonardo e Carlos se deparam com o peso do corpo sem alma e percebem que são incapazes de sustentar a própria existência. O que fazer com o corpo é a pergunta de duas vidas que se encontram em um limiar entre o podre e o comestível, entre o movimento e o corpo estático, entre a morte e a vida.
Flávia Cera
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A cor quente, o enquadramento sufocante, claustrofóbico, e o dialogo existencialista nonsense encaminham bem a curiosidade de quem assiste. Durante um tempo fiquei me perguntando sobre o corpo e os motivos do crime. Algumas pequenas pistas, falsas ou não, me levaram a isso. Depois, fui me dando conta de que o corpo de que eles estavam tratando estava mais relacionado ao corpo de cada um, ou seja, o que é que vou fazer com esse meu corpo morto e em movimento: arrastá-lo para o quarto dia após dia até o momento de finalmente enterrá-lo? Dissecar para melhor compreender o que fazer dele? Enfim, muitas perguntas e um ambiente insalubre em que a vida escorre. As tomadas da carne no prato são muito boas, especialmente a última, da carne com o espaguete, em que o movimento do garfo no prato dá a sensação dos vermes se movendo e consumindo a carne. Algo um tanto canibalesco, escatológico e tanatológico. Necrófilo até. O tempo modorrento da narrativa, combinado com a cor do filme, dão uma sensação quase infernal, de sofrimento eternizado, câmara de descompressão para lugar nenhum. Do mesmo modo: o jeito modorrento com que os autores dizem o texto. Nesse ponto tenho dúvidas, pois o texto se aproxima muito da forma literária, e esse é um defeito (ou não) comum aos roteiros cinematográficos no Brasil. Ou não estamos acostumados a falar “bonito”, ou na hora de interpretar a gente é tomado por alguma coisa que deixa tudo muito fora da ação, muito num patamar recitativo. Mas, no caso d’O Corpo, acaba funcionando bem, uma vez que o ambiente se torna cada vez mais metafórico. Outra grande sacada foi ter a dupla de personagens. Isso costuma funcionar em muitas estruturas dramáticas, e funcionou bem neste roteiro, com algumas diferenças mais nítidas entre um mais “sagrado” e outro mais “secular”, um tratando mais do que “é”, enquanto outro trata mais do que “será”. Alguns bons textos seguem essa estrutura, com mudanças em relação aos papéis dos personagens, como Dois Perdidos numa Noite Suja (Plínio Marcos), Na Solidão dos Campos de Algodão (Bernard-Marie Koltès), e Namíbia Não (Aldri Anunciação).
Gustavo Melo
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Deleted Scene (with a song by Stanley Tool Trio) – O Corpo – Rodrigo Lopes de Barros – ProRes 422 HQ or MPEG4
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