“No final da noite”

  • Publicado originalmente em: Revista Seringal de Idéias 1.1 (2007).
  • Este conto acabou não incluído na coletânea “A Carne do Metrô”, mas se trata de obra contemporânea às outras histórias presentes no livro.

No Final da Noite

Rodrigo Lopes de Barros

Não sei ao certo o motivo pelo qual aqui estou; odeio esse tipo de lugar; não suporto minimamente o amontoado de luzes coloridas, a música com batidas ritmadas, as pessoas se esfregando, dançando alucinadas, pulando suarentas, beijando bocas desconhecidas, bebendo e trepando nos cantos escuros; nutro uma raiva profunda por essa aparência de felicidade, talvez seja porque jamais poderei sentir-me assim, normal; abomino essa naturalidade fútil e rasa, esse lugar-comum de uma juventude podre e vazia, de uma sociedade perfeita na segregação.

Quando desci do táxi, defronte à entrada dessa boate, imediatamente, todos os indivíduos, revestidos com panos estampados, interromperam suas conversas e simplesmente passaram a exercer sobre mim a maldita faculdade do olhar. Avaliaram-me portando um semblante misto, plural, inexoravelmente abarrotado de nojo, curiosidade e espanto, nada mais que julgamentos implacáveis, como se perguntassem: o que faz ela aqui?

Cheguei sozinha, audaciosamente desacompanhada, atitude desaconselhável em meu estado. Não enfrentei a longa fila, possuo essa regalia. Paguei o ingresso, e, logo em seguida, dirigi-me ao balcão, sentando num banquinho alto, solicitando que o barman guardasse meus pertences e servisse uma tequila legítima, garrafa inteira. Matei um copo atrás do outro; passei a admirar meu rosto no espelho que enfeitava a prateleira de bebidas. Ele é perfeito: sou linda, loura, olhos claros e simétrica. Mesmo assim, continuo aqui, sentada, solitária, apenas observando o ambiente inflar-se de incontáveis faces desconhecidas.

São três da manhã, estou bêbeda e praticamente surda. Desvendando a neblina que se apoderou de minha visão, observo que um garoto de mais ou menos vinte está a me olhar. Bonito, alto, inchado. Sorriu. Dentes grandes. Fecho a cara e engulo mais uma dose. Ele não desiste e aproxima-se. Estende-me a mão. Eu retribuo-lhe, levo um leve puxão e um beijo forçado na face. Irrita-me sua aparência sem cortes, dor ou qualquer sofrimento. Pergunta-me o nome. Respondo secamente. Não o olho. Está sozinha? Será que ele não consegue ser mais óbvio e imbecil? Não falo nada. Começa, então, a ladainha. Diz que me acha bonita, linda, simpática, inteligente, que quer me beijar desde o momento em que me viu, sussurra cantadas vagabundas, proclama seu amor incondicional, quer casar-se comigo, ter filhos, uma casa, dois carros… Meu deus, o que esses caras não fazem por uma buceta? Retruco, digo que não posso. Quero resistir, empenho-me constantemente. Tenta beijar-me. Viro o rosto. Tenta novamente. Luto com mais força ainda. Outra vez, outra… Capitulo covardemente. Ele é o vencedor.

Estamos a quarenta minutos nos comendo de roupas. Eu sentada no banco alto. Ele em pé com os braços apoiados no balcão. Paramos para resgatar o oxigênio que foge. Pergunta, então, se moro sozinha. Sim. O garoto deseja ir para a minha casa. Tento convencê-lo do contrário, não quero decepcioná-lo, nem a mim mesma. Acho que não percebeu nada. Caso tivesse notado falaria algo? Não aparenta gostar de fetiches. Deve estar tão bêbado quanto eu. Ele insiste muito, durante longos minutos. Acabo aceitando, com receio do que possa acontecer. Mas a bebida me estimula e encoraja. Peço ao garçom a conta, pago-a e solicito minhas coisas, que, por sua vez, são trazidas rapidamente. Pego, então, minha muleta prateada e ponho-me em pé. Não havia contado ao garoto, que pelo visto não percebera. Começo a caminhar sem metade da minha perna esquerda, cuja foi dilacerada há doze anos num acidente.

Após alguns poucos passos, percebo que não sou acompanhada. Grito alto para desempacar o rapaz:

— Ande! Vamos! Não quer ir à minha casa?

Minha voz parece haver despertado-o; mexeu as pernas, alcançou-me, ultrapassou meu andar manco e, agora, segue à frente, cabisbaixo e com as mãos no bolso. 

Vergonha. Até o mais prolixo não poderia escrever mais que essa palavra para expor os sentimentos do garoto.

Saímos da boate. Novamente me acerta uma saraivada de olhares. Na rua iluminada, ele observa-me de soslaio. Parece querer descobrir se o que enxerga, ou o que não consegue enxergar, não passa de um efeito cômico do álcool. Gruda o queixo no peito desenvolvido e apressa o passo. Alcanço-o, quase desabando, e logo entramos em seu carro. Liga o motor e não diz uma palavra. Eu também não. Digno-me a lhe dizer: à direita, à esquerda. Dirige velozmente. Chegamos em frente ao meu edifício. O silêncio é longo. Ele sua, bate o queixo, soluça, coça a testa, mas permanece hermeticamente mudo.

— Então, vamos subir um pouco? – decido perguntar.

Com a voz baixa e entrecortada parece suplicar:

— Desculpe-me, eu não tinha a intenção…

— Desculpe-me? – digo rindo melancolicamente. – Desculpar-lhe pelo quê? Pela minha falta de perna? Por sentir nojo de mim? Por ter me dado esperanças? Por ser mais um perfeitinho filho da puta? Um desgraçado que vomita só de se imaginar fudendo uma perneta? Anda! Pelo quê? Diga…

— Por favor, vá embora!

Desço desprezada do carro e ele arranca cantando os pneus. Entro furiosa em casa; deito-me na cama completamente nua, intocada, virgem. Entre as minhas pernas começa a ascender um odor suave. Gemo, grito, choro, buscando um prazer solitário no final da noite. 


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