“Negra Escuridão”

  • Conto selecionado para a 4ª Bienal de Arte e Cultura da UNE: Encontro com Nossa América, 25 de Fevereiro a 02 de Março de 2005 em São Paulo, SP.

Negra Escuridão

Rodrigo Lopes de Barros

Encontro-me aérea. Extremamente elevada. Sob meus pés descansam toneladas de concreto fosco. Uma friagem abundante percorre inexorável minha espinha dorsal. Não saberei precisar a altura em que estou – nem ao menos existe a ciência de quantos andares escalei. Pois, quando embaixo desse monstro acheguei-me, somente pude questionar acerca de seu paradeiro – estava procurando incessantemente o homem que havia de transmutar-me a existência; alguém que lograsse o prazer do toque, um audaz perante os meus olhos envidraçados. Atenderam-me de mau agrado. Uma mulher, que possuía na voz o timbre do descaso, dissera-me para subir, galgar as alturas, alforriar-me de uma profunda agonia. Indaguei-a novamente: ao concluir a árdua escalada o encontrarei? Já não lhe basta ser cega, agora há de ensurdecer-se também? – respondeu, arremessando-me sua viscosa saliva. Supliquei-lhe para que explicasse, levando em consideração minhas necessidades, o procedimento mediante o qual chegaria aqui em cima. Era humilhante, eu sei. Mas o que fazer se não havia decorado os caminhos na mente, se não contei os passos entre as paredes evitando as colisões de minha fronte protuberante. Porém, aquela voz rouca pareceu não se comover com meus pedidos; as dificuldades que lhe mostrava não a faziam humanizar-se em nada. Sentia o calor de seu corpo a ligeiros passos, no entanto a indiferença, que emanava daquele ser, deixava-a ausente e inatingível. Eu desejava enfurecer-me; mostrar-lhe toda indignação que sustentava trancafiada em meu corpo. Caso pudesse ver sua face, desferir-lhe-ia um murro nas pupilas sadias; existia esse gigantesco anseio. Contudo, não fiz absolutamente nada. Haviam me condicionado. Disseram-me na família, na escola, na vida, que a mulher deveria ser delicada, meiga, submissa, utilizar-se da beleza ao invés da força, da sedução em lugar da persuasão. Então, calei-me. Senti dois braços fortes, portadores de bíceps musculosos, pertencentes a homens robustos, segurarem-me violentamente. Arrastaram meu corpo escada acima. Não se importaram com o debater-se que empreendia no intuito de libertar-me. Fui levada ferozmente durante longos minutos, incontáveis. Meus pés, calçados com gastos sapatos, chocaram-se contra as quinas enrijecidas da escada. Queria gritar, dizer-lhes que uma cega pode muito bem galgar os pavimentos de um edifício, mas a opressão que me era imposta não permitia uma única sílaba escapulir de meus lábios. Além do mais, não creio que aqueles ignorantes quisessem me escutar. Andares e mais andares eram colocados para trás – percebia isso à medida que nos deparávamos com desconhecidos patamares; mudávamos a direção em cento e oitenta graus, num piso plano, e, dois ou três passos depois, voltávamos a subir pelo caminho infinito. Os homens cansavam-se.  Sentia suas axilas exalarem o odor agridoce de suor. Escutava as respirações aumentarem seu ritmo. Às vezes, um bafo cálido encontrava-se com minha desconhecida tez. A velocidade diminuía a cada instante. Devagar. Mais devagar. Enfim, chegamos. Arremessaram-me como um saco velho de comida. Estatelei meus ossos no cimento petrificado.  O gosto sanguíneo apoderou-se de minha boca. Uma ardência prazerosa mostrou-me as gengivas cortadas. Disseram-me que esse era o último andar. Nesse instante, abandonar-me-iam solitária para que descobrisse o lugar no qual repousava a sala de tortura, onde, provavelmente, aprisionaram-no como um animal. O único gesto solidário, daqueles homens brutais, consistiu-se em devolver-me a bengala e os óculos escuros. Não conheço a aparência de meus óculos, mas os uso porque algumas pessoas apavoram-se ao deslumbrar o vácuo deixado pela ausência de minhas íris. Percebo, ao tocar-me, as duas pequenas crateras que ostento no rosto. A natureza fê-las um cartão de visitas. Não posso ver os indivíduos arrepiando-se, metamorfoseando a face por meio de feições enrugadas. No entanto, sinto, através do deslocamento de ar, a repulsa que sentem por mim. Possuo um aspecto horrendo para aqueles que podem enxergar. Mas, como somente conheço minha face pela sensibilidade das pontas dos dedos, a mim essas cavidades não passam de caprichos delicados e insensíveis. Canso-me de pensar. Tento sustentar meu corpo de seios flácidos sobre as pernas esguias. Levanto-me. Um sentimento de abandono invade minha alma. Encontro-me aérea. Extremamente elevada. Apenas com uma bengala que me guia e duas lentes negras que me protegem, caçando loucamente o único homem que me amou.

Seguro a vareta na mão direita e começo a batê-la tristemente no piso. Reverbera em meus ouvidos o som contínuo daquela aguda marcação, semelhante a um contador de passos sincronizado com o mais pontual dos relógios. Os estalos, provenientes dos choques que a bengala executa, transformam-se nos olhos que me foram arrancados, e guiam meu ser através de uma caverna despótica e desconhecida. Estou amedrontada. Apavora-me a ideia de que uma simples saliência traia minhas convicções e leve-me ao chão numa queda avassaladora, quebrando-me todos os ossos do rosto inimaginável. Entretanto, não saberei precisar o motivo de tamanho assombro, o porquê da cautela extrema em caminhar pelos corredores desse edifício, o pavor às consequências que um tombo pode acarretar-me, uma vez que a dor não me incomoda em alto grau. Acordo todos os dias de minha vida com o pescoço latejando; as vértebras da coluna comprimem meus nervos que gritam desesperadamente por salvação; meu útero entra, a todo instante, em colapso para se defender de um câncer incurável. Estou pacificamente acostumada a esse tipo de aflição física. Ademais, podem arrancar-me todos os dentes cariados, retalhar a pele de minha face abarrotando-a de cicatrizes rugosas, entortar-me o maxilar avantajado, quebrar em vários pedaços meu largo nariz, amputar-me os seios gordurosos, que nada disso fará a menor diferença. Nunca descobrirei a serventia do que as pessoas chamam de espelho. Explicaram-me uma vez. Porém, não existe a possibilidade de compreender algo que somente possui algum sentido se dele próprio você feito for, e não há imagens em meu cérebro. De lambujem, ainda permito que me cortem a língua, pois meu amado, além de cego, não é capaz de escutar o mais bombástico dos ruídos.

Ah, angústia maldita, que me fazes desejar a corrida para abraçar todos aqueles que me permitem existir. Mas, não deixareis levar-me por tuas armadilhas. Pressinto que queres ludibriar-me, esquecendo de minha condição. Rogas para que eu tropece, descendo, como um corpo sem vida, os inúmeros degraus pelos quais fui arrastada.

Ouço passos a encontrar-me. São sapatos que adornam os amplos pés de um senhor adulto. A julgar-lhe pelo barulho, percebo que está vestido elegantemente. Caso não cesse os movimentos, colidir-se-á comigo. Trata-se de um homem discreto, pois o perfume que exala de sua nuca fora aplicado de maneira comedida. A fragrância delicada irrita adoravelmente minhas narinas. Possui um andar delicado. Desviou para não se chocar com meu corpo. Não posso deixá-lo ir. Senhor, onde fica a sala de tortura? Eu levo-lhe até lá – respondeu-me piedosamente. Não! O que está fazendo? Não lhe pedi para enlaçar seus braços aos meus. Por que todos pensam que desejo ser guiada através de outros olhos, como se fosse uma inválida ou impotente? Quero apenas que me diga onde encontro esse lugar. Estou procurando-o há dias. A primeira porta à direita – indicou-me com rispidez. O som da caminhada distanciou-se lentamente. Em determinado momento, o silêncio não mais me permitia descobrir a distância de meu antigo interlocutor.

Ponho-me a golpear a bengala de um lado para o outro, compondo músicas fúnebres com uma só nota, ampliando, incessantemente, seu ângulo de alcance. Surge um obstáculo. Acredito que encontrei uma parede construída de madeira compensada. Caminho, então, lateralmente, arrastando os pés, até deparar-me com o tapume. Estico meu braço rente ao corpo e caminho esfregando-o nas tábuas. Não era uma parede retilínea: construíram-na de forma oval, uma espécie de anel interminável. Estou andando em círculos, há muito que se esvaeceu qualquer noção de tempo. Um objeto prende-se ao meu cotovelo perfurado pelas farpas. Toco-o. Uma maçaneta. Deve ser aqui – penso, desejando lágrimas para chorar.

Girei o puxador e abri lentamente a porta. Um grito agudo emanou das arcaicas dobradiças. A sala exalava um aroma intenso de papel velho. Escutei a presença de três pessoas. Uma velha máquina de escrever agredia meus tímpanos. Não senti o cheiro dele. Com dois passos, adentrei o ambiente e esbarrei num balcão. Qual a cor desse balcão? – perguntei. Bege – respondeu-me uma moça com a voz de vinte anos. Qual a cor desse balcão? Bege. Qual a cor desse balcão? Bege. Gritei com todas as forças: Qual a cor desse balcão? Ele é negro! Entendeu? Negro, para você tudo é negro! Um alívio gratificante instalou-se em meu estômago. Minha respiração retornou ao seu estágio natural. Aqui é a sala de tortura? Não, ela fica um andar abaixo. Como a alcanço? Desça as escadas. Ele não está aqui? Não, essa não é a sala de tortura. Como a alcanço? Eu a levo. Não! Por que todos vocês querem me levar? Eu sei andar. Sinto o que aqui ninguém mais sente. Vocês não são humanos, são apenas máquinas, loucos. Estão loucos e enganam-me. Vou-me. Eu chego até lá, sozinha. Então, desça as escadas.

Rodopiei sobre o eixo de meu corpo. Estava ansiosa e demorei-me abrindo a porta; as mãos tremiam. Pus a retirar-me com a ponta da bengala roçando o caminho à frente. Não me lancei em agradecimentos às funcionárias; jamais mereceram. Obtive a certeza de que o ocultavam próximo de mim; talvez a busca acabasse prematuramente. Decidi, a seguir, caminhar em linha reta, não me desviar um passo sequer. Andava sem pressa, com cautela. Senti o nível do pavimento modificar-se abruptamente. Havia redescoberto as escadas. Conduzi-me de maneira pouco sutil, agarrada ao corrimão metálico, medindo amedrontada a altura dos degraus. Alcancei o patamar inferior. Resolvi atravessá-lo tateando o vazio desconhecido. Outra parede anelar estagnou-me os movimentos. Encostei-me a ela e repeti as voltas intermináveis. De repente, tocou-me o trinco de outra porta. Adentrei-a. Você novamente? – disse a mesma voz que, há pouco, havia ordenado-me a descer. Não pode ser – respondi –, estou um andar abaixo. Mentira! Acabou de deixar esta sala. Quem mente é você – protestei –, não há cheiro de papéis aqui. O odor que explode em minhas narinas pertence ao meu amado. Alguém, então, segurou-me pelo braço e arrastou minha carcaça pela extensão do recinto; se a sala fosse realmente a mesma, um funcionário exemplar havia retirado-lhe o balcão, as mesas, a máquina de escrever, os documentos, enfim, tudo. Após alguns metros, não me puxaram mais. Uma ventania gelada embaraçou meus cabelos ralos. Percebi que estávamos à beira de uma janela. Veja – senti a moça apontar, como se eu pudesse ver –, ele está lá em baixo lhe esperando. A que altura estamos? – quis saber. Deverá descobrir sozinha. Mas eu não o vejo. Então, pule. Não! Confie em mim. Sou sua representante. Eu posso ver por você – ela possuía o tom de voz mais terno que escutara. Não resisti. Entreguei-lhe a bengala e os óculos escuros. Despi-me lentamente das roupas que me agonizavam. Galguei um pequenino degrau e excitei-me com o vento úmido, molhando os poros de minha nudez. Crucifiquei-me espontaneamente, esticando todos os músculos, dos braços à ponta dos pés. Deixei de respirar e pulei na escuridão. Não senti medo algum. Mas sei que me encontro aérea. Extremamente elevada. Caindo rápida demais para sobreviver.


Download PDF of the short story as published in Revista Recrie in 2005.


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