“Monólogo com a Infelicidade”

  • Contro premiado com o 3º lugar no XXV Concurso Nacional de Contos e Poesias FAFIMAN (2003)
  • Conto selecionado para a 4ª Bienal de Arte e Cultura da UNE: Encontro com Nossa América, 25 de Fevereiro a 02 de Março de 2005 em São Paulo, SP.
  • Este conto acabou não incluído na coletânea “A Carne do Metrô”, mas se trata de obra contemporânea às outras histórias presentes no livro.

Monólogo com a Infelicidade

Rodrigo Lopes de Barros

Sempre possuí olhos com faculdades atentas aos mínimos movimentos da massa natural que me cercava, inclusive deitava-os insistentemente sobre a natureza humana. Não obstante, em tempo algum fui capaz de compreender as sutilezas de certas pessoas, em especial as que me presentearam com a importância da existência. Naquele dia, diferente nada seria. Pois, por que diabos haveria de ser? Uma leve garoa percorria a passos calmos a estrada entre o céu e a terra, sangrenta e dolorosa, mesmo assim nada tinha de especial. As gotas de chuva, acostumadas com a companhia da inveja humana que pairava sobre seu poder, ignoravam tudo ao redor. A fumaça de meu cigarro tinha-me como amigo, e assim despejava dentro dos pulmões o pouco carinho que eu ainda recebia. A nicotina teimava em continuar acesa, numa briga constante para enviar água a seu lugar de origem (se é que existe) e permanecer viva alimentando o fogo. Já não me restava esperanças de mais nada, tinha a consciência que o extraordinário passaria pelo mundo sem sequer dizer bom dia, visto que, em tal noite, fora reservado aos especiais. Somente restou descansar os olhos rumo ao nada, o abstrato. Contudo, sabia que o vazio não estava à minha frente. As paredes de concreto são grandes demais para serem tão facilmente ignoradas. Concentrava-me no tato, sentia lentamente minha pele umedecer causando calafrios que nem chegavam a estremecer os ossos. Tudo era simples, pequeno e comum. A chuva, meu cigarro e minha pele nada traziam de novo, pois este, o original, se encontrava adormecido nas profundezas de meus pensamentos e faltavam forças para acordá-lo. Minha vida, por inacreditável que possa parecer, ali se resumia. Até então, nada construí de que me orgulhar. Não havia boas recordações, não conheci o supremo, a volúpia muito menos. Agradeço aos dicionários por saber da existência de tais palavras.

A angústia, que dava voltas ao meu redor como um louco extravasado, na verdade esperava a ira tomar conta dos movimentos de minha carcaça, pois queria ser assassinada com cólera, raiva, paixão para então se desfazer sobre seus próprios conflitos, nada mais previsível. Todavia, a minha morbidez impedia-me qualquer ação e passionalmente fiquei a olhar todo excremento fétido de meu ser brincar diante dos meus olhos. Insatisfeitas por obterem de mim apenas a resignação, as tristes contradições cessaram suas cirandas infantis, e para me afrontar decidiram fugir aos olhos e adentrar o meu corpo, já não era sem tempo. Sentia-me como um fazendeiro que vê sua plantação ser infestada por pragas e nada pode fazer a não ser sentar e aguardar lastimoso, pois utilizou todos venenos possíveis e estes apenas fizeram inexoráveis seus agressores. A sensação alastrou-se pelas partes sensíveis de meu corpo, rasgando o que encontrava pela frente, transformando leves dores em contrações insuportáveis. Faltava coragem para chorar; gritar era impossível, restava-me esperar a destruição chegar ao fim. Não mais distinguia a noite do dia, mergulhei numa penumbra insustentável a qualquer pupila, apesar de saber que era madrugada, uma vez que jamais conheci sol algum. Também, não me era possível compreender se vivia um sonho ou realidade, as imagens jaziam sólidas, mas, sinceramente, isto não fazia a menor diferença, porque com tamanha prostração dolorosa nada me faria melhor, nem o mais belo dos devaneios.

Então, de repente, como por mágica tudo parou, houve um lapso de estática em meu mundo. Pensei que fosse o momento de desertar, queria conhecer o que existia no fundo do abismo cavado com meus próprios pés, mas não foi possível. Não tive tempo de pular, pois quando as coisas não andavam mais eu parei para pensar, perdi a oportunidade, e no instante em que tudo recomeçou a caminhar aconteceu um grandioso impacto, não resisti e vomitei por longas e aleivosas horas. Minha golfada estirou-se num chão de mentira feito com materiais sem vida, que somente a deixava mais fria do que realmente era. Fiquei parado na calçada que ironicamente dançava sob meus pés. Enxergava como se estivesse participando de uma brincadeira surreal, não existia nada fortemente definido. As luzes acendiam e apagavam, mas não havia mãe alguma para obrigar-me a parar. Então, as lâmpadas se queimaram e somente com a iluminação lunar, que acompanhava a mesma dança do calçamento, vi nascer lentamente, de meu próprio vômito, o sentimento que me acompanhou por toda existência: meu amor e minha desgraça, a liberdade que me aprisionava em grades inquebráveis. Surgia daquela poça nojenta a Infelicidade do meu ser.

Custava-me a distinção de minudências, principalmente a sutileza das cores. Havia uma certa nuança cromática, onde as incalculáveis gradações daquele líquido, derramado ao chão, absorviam o denso e negro ar que pairava sobre minha cabeça. O amarelo, na procura intransigente pela leviandade, fundia-se ao verde-claro, num movimento que me recordava redemoinhos construídos na superfície fria da piscina que possuía nos quintais de minha infância. Não posso dizer que me encontrava em polvorosa, tampouco flutuava num mar de calmaria; a despeito de encontrar-me mais próximo do primeiro estado de nervos. Mesmo assim pude observar o temor dos pingos de chuva perante meus sentimentos jogados na calçada. Eles despencavam de forma retilínea, paralelamente oblíqua ao meu olhar. Porém, no instante em que estavam prestes a chocar-se de frente com o caldo que naquele lugar depositei, entregaram-se desesperadamente a duas curvas: uma para esquerda e outra para direita – metade, metade – como se existisse uma bifurcação sólida e necessária. E na medida em que meu vômito aumentava o movimento espiral, crescendo para cima e lados, a bifurcação dos pingos d’água aproximava-se dos noventa graus; e, cada vez mais, o medo do mundo distanciava-se para o vácuo. Todo aquele líquido deprimente borbulhava, criando uma erupção que tomava formas cada vez mais definidas. Transformando-se num ser não tão grande, tampouco minúsculo; por horas horroroso, por vezes magnífico; passo a passo, pedaço a pedaço, membro a membro um fantasma de rosto familiar emanava a minha frente. Imagem clara, não obstante luz alguma possuir. Flutuando não se sabe para onde, embaçada não se imagina o porquê; de olhos fortes e pouco corajosos. Em fim, de toda contraditoriedade imaginável a uma criatura ou à parte de alguma. Perplexo e apaixonado tentei tocá-la, beijá-la, porém fui repelido com um gesto de desprezo e nojo – até os filhos de meu ventre possuíam repulsa a mim. De voz altiva, não obstante calma, e com a intimidação de um algoz sussurrou-me:

– Precisamos conversar – dizia a Infelicidade. Estava com a mesma frieza no olhar que me cativou ao longo dos anos. Como um pêndulo balançava de um lado para outro, e este movimento dava-me a impressão de estar mais tonto do que na realidade me encontrava.

Levantei a rosto para observá-la melhor, mas, ainda desorientado, fui obrigado a retroceder. Olhando para o chão, num misto de alegria e tristeza, abri um sorriso irônico e tentei articular palavras em tons pouco suaves.

– Para que queres conversar? – levantei o rosto e a encarei nos olhos.

– Porque necessito esclarecer nossas perturbações. Nos últimos tempos os acontecimentos andam a me angustiar e não enxergo nada além de confusão. Creio que chegou o momento de destruir nossas agonias – estava completamente limpa e seu odor lembrava-me os cabelos de minha mãe.

No fundo eu a amava, a despeito de transmitir tamanha dor encarnada na tristeza. Que relação, meu Deus! A Infelicidade extirpava as entranhas paradoxais de meus conflitos, e, por fim, restava-me a resignação em imaginar que meus planos não passavam de curvaturas ao infinito. Pois quando algumas pessoas são infelizes, sabe-se lá porquê, ao invés de lutarem para buscar os sorrisos de alegria, encontram na tristeza o glamour de suas vidas, e acreditam que as suas infelicidades as tornarão seres especiais; para que ser feliz se o obscuro é mais elegante? Pensam com isto fugir do comum, miséria e mediocridade da existência. Embrenham-se pelas trevas de um mundo gótico, onde cada lágrima, cada surto de loucura, cada corte feito a faca na pele de seus próprios braços consiste no mais grandioso de suas vidas. Sou uma dessas pessoas, vivo intensamente o infeliz na beleza mórbida do ser. Possuo o mais doentio sentimento por essa companheira, abaixo-me pelos cantos das ruas apagando um incêndio a cada esquina, e chorando com hipocrisia vou esquecendo as ambições de cada beijo que nunca recebi. Concentro toda mesquinharia na frieza do ódio, e talvez faça tudo isso por proteção. Essa é minha armadura senhores, de tamanho tal que não noto as armas do jogo. Mas naquele momento havia me cansado:

– Mentira! – gritei em voz baixa, pois não existe utilidade para altura diante da ilusão. – Não te preocupas com nós, somente enxergas a ti – meu rosto desfigurava-se como se nele escorresse ácido –, pretendes preencher teu ego. Jamais acreditei que tivesses qualquer rastro de sensibilidade. Tu és egoísta a ponto de não olhar para os lados.

– Talvez tenhas razão – a infelicidade continuava flutuando acima do pavimento molhado –, mas aqui não estou para discutir minhas deformidades, tampouco para aceitar o caminho por onde correm nossas vidas, simplesmente não quero mais compartilhar desta agressiva brincadeira. Durante longos anos nós estivemos unidos e chegamos a entrelaçar nossas mãos. Suas lágrimas alimentavam-me proporcionando o conforto que jamais encontrei em pessoa alguma; cheguei a pensar que tu não foste real ou que tamanho carinho não passasse de compaixão; deslumbrei o impressionante em ti, nunca fui tão pouco eu mesma; mas a verdade é que nunca te amei. Por isto, falta de amor, coloquei a tristeza como tua única forma de prazer, mas agora nada mais faz sentido, porque acredito que em outros encontrarei coisa melhor. Existem muitos a minha espera e preciso viajar. Preciso me saciar de mágoas novas e diferentes. Admiro tua fidelidade, nunca vi tão dedicada pessoa, que me enchia de presentes e carinho esperando em troca apenas minha companhia – após uma dolorosa pausa continuou como se nada estivesse acontecendo. – Pode ser este o problema: mergulhaste tão profundamente na mediocridade de teu ser que por pouco não me fez feliz. Porém, se a alegria dominar-me terei de partir para inexistência. Sendo assim, abandono-te agora; antes que tarde seja.

Neste momento a Infelicidade, que tanto me fez chorar, derramava sua primeira gota de lágrima e como uma criança indefesa deixou cair sua face e fixou seu olhar no chão. Eu, atordoado pelas palavras, tentei convencê-la a mudar de idéia:

– Meu amor – quis segurar suas mãos, mas ela as escondeu –, nada é fácil para quem não se sente como deseja. Não estou aqui para propor um caminho sem obstáculos, seria mentira, tampouco quero que nossa jornada seja repleta de pedras e espinhos, somente ofereço minha ajuda para que juntos transpassemos as barreiras. Não quero outros sentimentos, preciso continuar no submundo dos que já possuo. Sou medíocre e disto tenho consciência, jamais me tornarei especial, daí vem a necessidade da tristeza, de ti, pois assim serei tanto sincero quanto me permitir.

Ela não se mexia, nem o vento que soprava calmo a fazia sorrir. Vendo isso, continuei:

– Minhas forças já se dissiparam no espaço, e sabes que esta é a ultima tentativa de ficarmos juntos, é agora ou nunca mais. O mundo não irá parar para que resolvas teus problemas. Queres fugir? Então vás. Mas não espere que esteja presente para saudá-la em teu retorno – completamente comovido e desgastado parei de respirar por alguns segundos, quando voltei ao normal não possuía vontade de despejar uma só palavra.

– Tenho que fazer isto, e se te perder sinto muito – infelizmente não percebi ironia em suas palavras.

– Sinto muito? – atordoado cheguei a cuspir enquanto falava. – Queres dizer que para ti não passo de um reles Sinto Muito? – não obtive resposta. – Sabes o que é um Sinto Muito? – e sem aguardar resposta alguma, pois sabia que não viria, bradei com ódio. – É um nada, meu amor. Não mereço sequer seu arrependimento.

Por um longo período o silêncio incomodou meus ouvidos, mas a Infelicidade quebrou-o e olhando em meus olhos comentou:

– Não espere de mim arrependimentos. Um sentimento como eu, que emana do fim das metas, não pode conhecer o remorso. Sou fria como o vento de outono, e nunca receberá de mim uma desculpa sequer, pois creio que estas não existem.

Diante daquilo o que poderia dizer para modificar algo? Nem uma idéia percorreu meus pensamentos, e como dois estranhos, que não se falam por timidez, ficamos parados um de frente para o outro admitindo apenas a troca de olhares.

– Obrigada por tudo – disse isto colocando a mão em meu rosto enquanto depositava um beijo de irmãos na pálida maçã de meu rosto.

– Se desculpas inexistem, agradecimentos são meras falácias – respondi secamente enquanto olhava o horizonte.

Neste instante uma delicada calmaria tomou-me de assalto desenhando um esboço de alegria em meu rosto, mas logo tudo foi sendo apagado. Quando se perde a esperança tudo se facilita, e a minha estava assassinada em meio a um crime passional.

– Então me vou – virei o rosto para o lado oposto a ela, não havia mais nada a dizer.

– Espere! – tentou me segurar pelos braços em tom de desespero.

– Não, daqui para frente todo sofrimento é inútil.

Comecei a caminhar não menos atordoado que antes. Chegou aos meus ouvidos um “adeus” extremamente tímido. Não respondi coisa alguma, continuei a andar sem uma só vez olhar para trás.


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