
- Publicado originalmente em: Revista Seringal de Idéias 1.1 (2007).
Apodrecendo
Rodrigo Lopes de Barros
almejo, pretendo, tento, mas não consigo, impossibilitado, inábil, incapaz de alçar-me, erguer as pernas, estendê-las, buscar-lhe, carregar seu corpo, pois um insustentável peso repousa sobre minha nuca, amargura, agonia, não posso erguer a cabeça, sinto o vácuo, vazio, oco espaço despreenchido absoluto, sentimento incondicional, irrestrito, amor, careço com isso cessar, estou piegas, cafona, clichê, devo chorar, derramar-me em prantos, desfazer-me em lágrimas, piegas, ninguém lamenta os mortos, entes, parentes, tudo bem, concordo, alguns defuntos merecem cantos fúnebres, mas todos diriam, não esse tipo de morto, cadáver, não tem alma, nem pensa, raciocina sequer, seria melindre em demasia, exacerbação sentimentalóide, consciência ínfima, coisa horrorosa, digna de repúdio, outros tempos seria a fogueira, contudo hoje aceito pelos homens ainda não o é, obrigamo-nos a ser duros qual cimento, e minha cabeça não levanta, e eu não choro, somente me condescendo a proteger-lhe, resguardá-lo dessas aves, abutres, sobrevoando-nos, ambicionando fartar-se do pão, devorar essa carne apodrecida, apodrecendo, no entanto, não se preocupe, enquanto estiver eu aqui eles amedrontados ficarão, espantá-los-ei, por toda eternidade, lhe protegerei até desaparecer, consumindo-se através desse cheiro decomposto, bacteriológico, atrativo às moscas, todavia continua belo apesar, dessa piscina vazia, desaguada, desalmada, seca como o mundo, somente minhas pernas a balançar, vida morte, não fosse um certo urubu intrometendo, tentando avançar ao fundo, bicar sua pessoa, carne cheirosa a eles, descansando no azulejo azul, teria eu ócio para pensar, refletir, discorrer sobre o tempo, nosso tempo, imensidão absurda, aberração incoerente, ilógico, disparatado, contraditório, antagônico, carrega o germe dos opostos em si, propaga-se ao infinito, ilimitado, desbravaremos o universo, conquistaremos mundos, dimensões, planos, existências, morreremos, individualmente, como casal, desapareceremos em espécie, e ele, o tempo, continuará a caminhar, inexorável, determinado, inabalável, na mesma marcha lenta e monocórdia, que se propaga aonde quer, que se diminui ao menor instante, partícula, fração, e foram muitos, não foram meu amigo, milhares desses estilhaços temporais, segundos intermináveis, e foram bons, não foram meu amigo, os momentos em que caminhamos unidos, juntos, apegados, entrelaçados, suados, porém não apenas nossos olhos foram testemunhas, amigo, temos cada canto do corpo para depor, comprovar o sentimento, bocas tragaram o mesmo ar, lábios molharam-se da mesma saliva, não minha, não sua, uma mistura, tornamo-nos um só, fisicamente, em espiritualidade, alma, houve unificação, pacto, aliança de idéias, de pensamentos, de ser, de tentar ser, de preto e branco, uma coisa apenas, tão somente nós dois, conhecemos os olhares, aprendemos mais um alfabeto, um língua estrangeira, difícil, cega, em braile, latim, aramaico, deciframos o tom de voz, o movimento dos lábios, sobrancelhas, testa, cabelos, amadurecemos, estávamos juntos para melhor agüentar a dor, suportar, éramos nossa morfina, companheirismo, foram anos, grandes, imensos, gigantescos anos, felizes, mais felizes da vida, arquivados, conservados no prólogo, no tempo, que faz perder tudo aquilo que é execrável, e, principalmente, imortaliza as grandes coisas, anos inolvidáveis, memorizados, inesquecíveis, retidos, impressos nesse tempo infinito, em mim, em você, estamos irremediavelmente marcados, para sempre, estendidos à imortalidade, pelo sublime, divino, belo, eterno pelo tempo que existir, mas agora não posso me descuidar dos abutres, você não é mais o mesmo animal arisco, esquivo, corajoso, não passa de alimento, vísceras expostas, abertas, putrefatas, descansando, no leito de morte adormecido, ninguém mais pisará nesse tanque, luxo excessivo, nunca me serviu de nada, piscina inútil, conhecia sua vontade de nadar, flutuar, mas nunca o deixei, como me arrependo, escutei os outros, diziam que não era o seu lugar, estou redimindo-me, descansará aqui, para sempre, uma vez que era de minha estirpe, família, alma gêmea, deveria comê-lo eu, lentamente, saboreando à náuseas o que restou de sua vida, não esses abutres miseráreis, aproveitadores, inescrupulosos, anjos, recriadores de vida e história, magníficos e intocáveis, deuses, mas todos são deuses, eu não sou nada, apenas um homem sozinho, solitário, que balança os tornozelos à borda de sua gigantesca piscina esvaziada, assombrando os abutres, que sobrevoam meu cão, morto, jazido ao fundo azul, frígido, lugar ao qual sempre almejou, ligarei a torneira, há de encher-se a piscina, os abutres terão maior temor, poderei descansar um pouco, minha coluna lateja, e depois de alguns dias, quando estiver tudo decomposto, a água transformada num líquido amarelo, viscoso, tingido com a própria carne, talvez eu, homem de poucas festas, com essa bebida, faça um brinde ao meu amigo, saúde