Ao Limite de Uxmal

Rodrigo Lopes de Barros

… desoladamente nascido adulto, como o que não foi dotado de uma infância.

S. Eisenstein (?)

Mérida, Península de Iucatã, México. Sentado no interior de uma casa de princípios do novecentismo, agora transformada em albergue para turismo barato. Havia acabado de retornar do núcleo da cidade, onde ingeri dois pratos meio-fundos de sopa quente, acompanhados de carne suína ao molho verde de tomate. Na Praça Maior, ladeada pelo restaurante e outros prédios típicos, assisti à execução de um baile que então me explicaram pelo nome de vaquería, admirando mulheres de beleza arredondada, com seus vestidos brancos de ornamentos um pouco avermelhados. Havia também acabado de visitar outra praça, onde em época remota, segundo escutei, desembarcavam negros escravizados. A casa-albergue em que me hospedava era administrada por um homem de quarenta e cinco anos. Um gerente total, a mando de seu marido canadense. Este visitava a casa apenas em determinados meses para fugir do frio nortenho. Já visivelmente cansado da minha presença – realmente fiquei por Mérida mais tempo do que planejara – o administrador me foi perguntando sobre as ruínas, sobre os pontos turísticos que eu havia visitado. 

– Você tem que ir a Uxmal – disse-me, ao perceber a ausência daquele sítio entre os quais ia elencando. – É o único que lhe falta. Depois, poderá seguir jornada.

Estava, naquele momento da vida, chegando à exata metade do meu programa de doutorado em literatura francófona do Caribe, pela Universidade de Nevada, Las Vegas. O progresso acadêmico não se desdobrava perfeitamente bem, tenho que dizer. Havia acabado de receber uma crítica de certo professor, que ao resenhar um de meus textos, qualificou-o como pressuroso. Conhecia-o pessoalmente. Nos encontramos num congresso profissional, onde dividimos uma mesa sobre literatura latino-americana. Ele, em primeiro lugar, mal falava o francês, ainda que se esforçasse grandemente. Sua área de especialização era em definitivo outra: nunca havia escrito uma só linha sobre o meu tema de pesquisa. Argumentou, ademais, que eu juntava no mesmo parágrafo pensadores demasiado distintos, como J. Ortega e M. Blanchot. Ora, sou parte da nova geração de tradutores de J. Ortega ao francês e frequentei, em carne e osso, faço questão de ressaltar, M. Blanchot em seus últimos anos, quando esse recebia pouquíssimos indivíduos. Tinha em torno de dezessete anos, quando decidi ser romancista ao ler um de seus livros. Escrevi-lhe uma carta, com o entusiasmo que só existe nessa juventude. Ele me contestou, amavelmente, e travamos amizade. Abandonei o meu mundo e me lancei à Europa para encontrá-lo: um começando a vida, o outro abandonando-a. Assim, quem melhor do que eu para conectá-los? De estômago embrulhado, marquei uma conversa com minha diretora de tese. No dia, mostrei-lhe a resenha e comentei a vulgaridade intelectual daquela crítica, bem como meu espanto com tamanha falta de erudição e de vontade de risco. 

– É de um conservadorismo espantoso – acrescentei.

– Você tem que ir ao México – me respondeu. – Não se preocupe com esse sujeito. Mas não se pode ser um latino-americanista sem conhecer o México profundamente… ainda que você tenha como especialidade a literatura caribenha de língua francesa.

Foi assim, então, o começo do plano que me levou a Mérida. E mais uma vez, depois de gastar dias naquela cidade, preparava meu ânimo para continuar em marcha… agora rumo a Uxmal: a esse sítio arqueológico, a essa última ruína que me faltava. Na palma da minha mão esquerda, enquanto escutava o conselho do administrador, lia coincidentemente, com o canto dos olhos, um pedaço de papel com um poema de A. Ginsberg, que dizia:

Uxmal: Noble Ruins

No construction –

          let the mind fall down.

Pale Uxmal,

          unhistoric, like a dream,

Tuluum shimmering on the coast in ruins.

Inegavelmente, o administrador, apesar de sua mesquinhez por desejar que eu percorresse tudo o mais rápido possível, a fim de esgotar os pontos de visita e, assim, partir da cidade, como fazia a maioria dos outros hóspedes, a despeito de tamanha falta de delicadeza, tinha toda razão. Eu deveria ir sim a Uxmal. Não poderia não comparecer àquele espaço. Ele teve a força de adivinhar o meu medo. Eu adiava de fato essa excursão, sentado em frente à mesa da sala, com o poema entre meus dedos, tomando coragem junto ao administrador do albergue. Naquela terra, Uxmal era o derradeiro dos grandes restos maias que sem meus passos ainda permanecia. Tuluum havia ficado para trás: com suas construções em escombros à beira do mar, à beira dessas águas a mim tão caras, o Caribe, e era de lá que vinha a folha com os versos de A. Ginsberg. Conheci em Tuluum uma garota, belga. Não me lembro mais do seu nome. Existia no lugar outro albergue, um daqueles que nos pedem o passaporte na porta de entrada e que nos devolvem apenas na despedida, após quitarmos o que supostamente se deve. A garota belga, uma noite, veio me falar: cabelos pretos, olhos pretos e miúdos, seios igualmente pequenos, pernas contrariamente fartas. Utilizava o espanhol, com um sotaque francês tremendo, mas ao mesmo tempo apaziguador, ainda que eu lhe dissesse não ser necessário. Que havia aprendido o seu idioma desde muito jovem, quando viajei para conhecer M. Blanchot. Automaticamente, me arrependi do que dissera, pensei que a garota belga não saberia quem mencionava, por que me havia surgido aquele nome à boca em justo momento? Que maneira de iniciar um flerte, uma conversação. Mas aquela referência pareceu não lhe causar efeito algum: ou ignorou a informação, ou verdadeiramente sabia de quem se travava, mas não se permitiu impressionar. Começou a enumerar outros marcos que eu deveria cruzar. Quis saber se estive em Palenque, em Yaxchilan, em Piedras Negras, em San Cristóbal de las Casas… Respondi afirmativamente, pois já havia passado pelo sul do México. 

– Você está seguindo a rota A. Ginsberg, pelo que vejo – ela me indicou. – Ainda haverá mais à frente: Chichén Itzá, Kabáh e Uxmal. Mas, de todas maneiras, se tiver que escolher um local em detrimento de outro, não deixe por nada de ir a Uxmal.

Não sabia da existência de uma rota informal batizada pelo nome de A. Ginsberg. Era sem dúvida uma novidade. Ainda não conhecia sequer o poema e nem de longe suspeitava que o seu autor habitara o lado baixo da fronteira. Mas não entrei em detalhes. Somente guardei o conhecimento, como peculiaridade. No dia seguinte, pela manhã, saímos juntos em excursão, rumo a um pequeno cenote. Ela me contou que escutara muito sobre esses lagos subterrâneos e, desde que aterrissou no continente, afundar-se em tais águas estava entre os seus principais objetivos. Chegamos à abertura indicada, marcada por um amontoado de rochas que a circundavam. De lá, fomos descendo até tocar com os pés o subsolo, nos agarrando num corrimão de madeira que balançava com a força de nossos braços. A escada de pedras, vez ou outra, soltava uma de suas partes, que caíam ressonando na água. Alcançado o fundo, mergulhamos no lago esverdeado pela luz que ainda penetrava pela fenda superior. Nadamos, mergulhamos, encontramos até pequenos túneis inundados. Gastamos todo nosso dia naquele cenote, abaixo da terra. Pela noite, retornamos ao albergue. A garota belga me ofereceu, então, um pouco de sua comida. Disse que poderíamos preparar um prato juntos na cozinha coletiva. Me pareceu uma tarefa generosa e descontraída. De suas coisas, já à beira de um fogão gasto e de uma pia pouco limpa, sacou um pote grande, recheado de cogumelos malhados. Ela me explicou que os trouxera diretamente de San Cristóbal de las Casas, eram selvagens e os havia conseguido numa feira por intermédio de algumas mulheres indígenas. Eu, que anteriormente também passei por aquele mesmo lugar, tinha fresco na memória a notícia da morte por envenenamento de alguns desses próprios moradores locais, pois, ao coletarem os tais fungos silvestres, haviam fatalmente se confundido, colhendo não os comestíveis, porém os seus semelhantes tóxicos. Ela me confortou, pois também sabia dos acontecimentos, mas hoje não haveria problemas: já os vinha comendo fazia dias. Cozemos, desse modo, os cogumelos e deles nos alimentamos num pátio interno, construído na centralidade do albergue. Passamos o restante da noite em conversas sobre o México, Las Vegas, a França, enquanto ela matava mosquitos, atraídos pela luz elétrica, com a palma da mão aberta, estalando-a contra as suas pernas. Até que fomos dormir com tranquilidade. Meu plano era ficar apenas dois dias naquela pousada nos arredores de Tuluum e nada mais. Assim, já era o final de minha estadia, que mal havia começado. Pela manhã, à medida que arrumava a maleta, a garota belga se aproximou, com seus olhos miúdos, para me perguntar se realmente eu seguiria viagem. Notei tristeza em seu reverberante sotaque, com a vista que se dirigia ao piso, e assim comigo evitava contato direto. Com sinceridade, pensei em lhe responder que não, que estaria por mais tempo no albergue, que inclusive a convidaria hoje para jantar em algum restaurante simples dos arredores, e que depois caminharíamos durante a noite pela Praia Paraíso, avistando as ruínas maias, para estarmos sós, e que então desistiria de minhas ideias de terminar o curso pelo território mexicano, e que me mudaria com ela, depois, para Toulouse, sua verdadeira cidade, e abandonaria o meu doutorado na Universidade de Nevada – que desde o princípio se havia mostrado um erro, resolução tomada depois de ficar convencido, ao conhecer M. Blanchot, de que uma vida genuína de pensador independente não seria o bastante para sossegar minhas necessidades materiais, o que me levou ao translado rumo à América, a aceitar uma bolsa de estudos suficiente para financiar-me um título, ao mesmo tempo em que me permitia ler, relativamente em paz, textos sobre a minha atual paixão literária, o Caribe. Enfim, cogitei lhe dizer tudo isso. Mas notei o perigo que se instalava, essa vontade de encontrar a tranquilidade. Aqueles sentimentos eram apenas mais um obstáculo. Tinha que finalizar o que havia iniciado, completar a jornada de conhecimento por aquele país, despachar-me então a Mérida, acolher-me num novo albergue, no qual agora me hospedava, e sentar-me à mesa da sala, para escutar o administrador repetir:

– Você tem que ir a Uxmal – sem a pronúncia afrancesada, mas em puro espanhol mexicano, carregado de toda sua reservada polidez e distância.

Não é à toa, portanto, que a quase ordem do administrador do albergue de Mérida resgatou de mim a memória da garota belga, que havia então deixado para trás. Ao nos despedirmos em Tuluum, ela, seguindo com a mirada fixa no assoalho, e eu com a maleta a poucos minutos de estar pronta, me entregou o pedaço de papel com o poema de A. Ginsberg.

– Para que você leia quando estiver por lá – simultaneamente, me estendeu, desde a outra mão, uma sacola plástica intensamente branca, que continha pouco mais de meia dúzia de cogumelos, pertencentes à mesma leva dos que havia trazido com ela de San Cristóbal de las Casas, que na noite anterior havíamos cozinhado. 

Quando me ia em definitivo daquele lugar, ainda a enxerguei saindo de capacete, pedalando uma daquelas bicicletas alugáveis, em que o condutor se senta com as costas retas e os braços esticados, com o cano frontal baixo, para que se suba passando a perna avante e não sob a roda traseira. Se tivesse permanecido em Tuluum e não vindo a Mérida, me lembraria do nome dela? Talvez sim. Entretanto, seguramente não teria visto a pirâmide de Chichén Itzá, ou as estruturas Kabáh. E não estaria agora somente a oitenta quilômetros de distância de Uxmal, prestes a concluir meus planos de viagem. Pedi, ao meu impaciente anfitrião, as coordenadas para chegar de ônibus ao destino que ele mesmo pouco antes me recomendara. Dobrei o retalho com o poema e o enfiei no bolso da calça. Levava o recordo da garota belga para vocalizá-lo perante as ruínas. Apanhei mochila e máquina fotográfica. Antes de pôr-me a caminho da rodoviária, a fim de economizar algum dinheiro, uma vez que a comida nesses pontos turísticos é em geral cara, resolvi fazer um prato rápido e descomplicado. Meia lata de feijão, dois ovos cozidos como de hábito e os cogumelos que dela havia aceitado e trazido comigo. Engoli o conteúdo da tigela e me satisfiz, até então, sem remorsos.

Os ônibus mexicanos são em geral confortáveis. O trajeto até Uxmal deveria prolongar-se por aproximadamente uma hora e meia. No começo, observava as figuras que comigo embarcaram. Em seu grosso, mulheres do mesmo encanto roliço que antes havia conhecido na vaquería, não muito altas, e algumas com suas crianças. Ao deixarmos o perímetro urbano, a paisagem que se formava desde a janela era plana, inicialmente verde, mas em partes adquiria algo de deserto litorâneo. O assento bem reclinado, misturado ao bom sistema de amortecimento e à falta de saliências no caminho, trouxeram-me sono. Em pouco mais de trinta minutos, dormia. Não sei bem por quanto. Mas creio que foi por tempo considerável, talvez demasiado, pois acordei mais tarde sendo chacoalhado. Era o motorista do ônibus, que me olhava com um daqueles sorrisos que aspira educação enquanto impacientemente me queria por inteiro desperto. Enquadrei sua face, que ocupava todo meu campo de visão ainda meio embaralhado, para perguntar-lhe se havíamos chegado a Uxmal. 

– Não – retrucou. – Uxmal ficou para trás. Passamos por lá, e quem teve que ficar em tal ponto já o fez. Estamos agora na última parada. Você tem que abandonar o sono e descer aqui.

O condutor me disse também o nome daquele vilarejo, como se eu desse modo me pudesse localizar. Infelizmente, não me recordo mais como se chamava o lugar, bem como não me lembro do nome da garota belga. Será que os aprendi alguma vez? O local não possuía sequer rodoviária. Estávamos em frente a um bar, que servia de ponto de vendas de bilhetes, além de oferecer água e comida para quem por lá esperasse. Desci junto ao motorista, que fechou a porta atrás de mim. Ao perceber que nunca havia pretendido semelhante destino, explicou-me que eu deveria pegar o mesmo ônibus de volta a Mérida, o qual faria o caminho inverso saindo às cinco da tarde, o que significava que não mais me seria possível visitar Uxmal, pois o parque se encontraria fechado quando voltássemos. Me é difícil ainda hoje lidar com a desilusão daquele momento. Senti minhas pernas por um segundo não responderem, mas creio também que o choque da notícia em seguida me anestesiou, como resposta de algum mecanismo interno de defesa. Fingi para mim mesmo que não visitar aquelas ruínas não era algo tão dramático, que eu deveria assumir as rédeas do acaso. Assim, não pude tomar outra decisão que conhecer o povoado. Logo quando se cruzavam os olhos na direção oposta ao bar, existia uma praça de chão batido, relativo tamanho e poucas árvores. Pelo que pude ver, as casas e os outros edifícios do lugar estavam em maioria ao seu redor. Se tratava mais de um ambiente rural e profundo, do que de uma urbanização propriamente dita. Vi à minha esquerda um prédio rosado, com a pintura desbotada, longo o suficiente para estender-se em totalidade por um dos quatro lados da praça, porém não muito elevado, cuja fachada era uma varanda de largas colunas. Devido à ambicionada imponência, imaginei que consistia na prefeitura ou em algum prédio público. Decidi visitá-lo. Ao me aproximar, descobri numa das pontas da varanda uma barraca de metal, quase como um pequeno quarto, mas dotada de uma abertura dianteira, pela qual se podia ver um homem que, competindo com o bar, também vendia algumas bebidas e alimentos. Fiz uma saudação positiva com a cabeça e pedi um copo de água gelada. Ao ver também algumas frutas penduradas, especialmente uma de vermelho intenso, ovalada e com várias escamas de pontas amarelas, que me explicou o homem pelo nome de pitaya, ordenei um pouco de seu sumo. Ele cortou a fruta ao meio – expondo um interior de carne branca com milhares de sementes inversamente escuras e dispostas de modo aleatório – e, amassando a polpa num jarro cheio de marcas de uso, me preparou a bebida. Novamente, especulei sobre maneiras de regressar por outro meio que não o ônibus das cinco, pois aquela excursão era possivelmente a minha última oportunidade de avistar Uxmal. Pela manhã do dia seguinte, partiria desde Mérida em direção a Puebla (para alegria do administrador do albergue), cidade na qual deveria localizar a minha diretora de tese. Ela visitava a cidade para assistir a um congresso e estava disposta a me mostrar determinadas igrejas barrocas caso eu me fizesse presente. Expliquei ao homem tudo isso, entretanto ele apenas me confirmou a informação do motorista. Perguntei também em que mais trabalhava, se era apenas vendedor ou algo além. Me respondeu que, na verdade, tinha a profissão de pedreiro. Todavia, por falta de encargos nos últimos períodos, abriu o pequeno negócio para ajudar com as despesas da família. E que, por sinal, o seu último serviço foi uma reforma, ocorrida há bastante tempo, no interior da igreja do vilarejo. E que se eu gostava de igrejas, como se deduzia de minha fala, deveria visitar uma grandiosa que eles possuíam, com mais de duzentos anos, segundo se comentava. Me apontou, de imediato, um morro longínquo, perto dos aforas do povoado. No topo, porém, observava-se claramente um edifício de formato quadrado, sem torres, rebocado de massa tosca sem pintura, ou de tinta já apagada, que dava certa impressão de rusticidade e falta de ornamentos, que de nada me remetia às imagens das edificações católicas de Puebla. O que se apresentava inegável, no entanto, eram as contrastantes altura e largura daquela igreja em relação ao resto da quase-aldeia. Destacava-se soberana em meio ao seminada. Terminei de beber, agradeci a indicação, paguei o que lhe devia e caminhei atravessando a praça até a base do morro. Tinha o intuito de me elevar à igreja. Por alguma razão, a distância se mostrou bem maior do que, à primeira vista, havia pensado. O morro se tornou demasiado íngreme, e a falta de degraus fazia com que se tivesse que pisar com cuidado, para evitar uma queda. Por fim, alcancei o alto e permaneci frente a frente com a porta central, que deveria medir entre sete e dez metros de altura em seu ponto mais elevado, onde um triângulo invertido em alto-relevo se sustentava. Subi minha máquina fotográfica aos olhos e registrei aquela fachada. Executei uma composição tão austera quanto a arquitetura que se expunha diante de mim, centralizei o enquadramento na entrada da igreja e na aparente escuridão que dela emanava. Aqui, reproduzo o resultado. 

Igreja, Povoado Desconhecido, México.

O ato de inserir a fotografia neste relato é essencial para o que contarei adiante. Como se pode notar, minha memória sobre algumas partes dos acontecimentos não está mais em seu ápice e, devido ao passar do tempo, já não posso me lembrar de particularidades importantes para constatar a veracidade de minha experiência no México, como, por exemplo, o próprio nome do vilarejo em que supostamente cheguei por acaso ou mesmo o da garota belga de Tuluum. Porém, a fotografia parece comprovar que de algum modo estive em tal povoado onde ficaria essa igreja do período colonial, cuja fachada para algum estudioso do tema seria até identificável, pois não creio que, ainda que se encontrasse em localização remota, não poderia estar por algum arquivo federal ou grupo universitário de pesquisa catalogada. Embora eu mesmo não tenha podido identificá-la, talvez por incompetência ou insuficiente formação na área, de acordo com a ordem das fotografias no negativo que foi revelado e depois cotejado com os recibos das passagens rodoviárias que guardei numa caixa como souvenirs de minha estadia, a única possibilidade de situar, com pouca margem de dúvida, como sendo o dia da feitura da fotografia é o mesmo de minha viagem frustrada a Uxmal. Se trata da última fotografia tirada naquela que é aparentemente a região de Iucatã e vem seguida, no negativo, por outra que registra a entrada da cidade de Puebla. Ou seja, essa outra foi seguramente realizada após minha partida em direção ao novo destino e ao encontro de minha diretora de tese.

Após fotografar o exterior da igreja, colguei novamente a câmera em meu pescoço e pus-me a entrar na nave, onde deveriam estar os fiéis. Mas não encontrei devoto algum. Estaria vazia exceto por um senhor que, pelas roupas eclesiásticas de cor negra, acreditei ser o sacerdote responsável pela paróquia. Ele manejava um projetor de filmes que, pelo tamanho, seria de bitola 35mm, arrumado perpendicularmente à entrada. Batia a sua luz branca na lateral esquerda do interior da construção, iluminando o que parecia ser uma capela de altura correspondente à porta principal. O fundo dessa capela funcionava como uma tela, já que estava desprovida de um altar de santo ou de pia batismal, parecendo-se mais a uma câmara ou pequeno teatro. Me aproximei da máquina para averiguar o que era projetado. O sacerdote por certo notou a minha presença, mas, como se fosse algo costumeiro receber um ou outro curioso, não desenhou qualquer gesto de explícito reconhecimento. Apenas, de tempos em tempos, se levantava e caminhava até perto das imagens projetadas, flexionando os joelhos e inclinado seu corpo à frente, como se quisesse notar algum detalhe na sequência de planos. Para depois, regressar à sua cadeira, vizinha ao ruidoso e incandescente aparelho, não sem antes parar mirando a luz que dele saía, a fim de olhar diretamente cada fotograma através da lente, em pé, na posição de quem se apronta para proferir uma palestra. Em determinados momentos, trocava pacientemente os rolos de filme – que estavam em várias latas, ao seu lado, e compunham o conteúdo de um caixote de madeira sobre o piso – quando determinada parte chegava ao seu final, com o intuito de dar sequência à exibição. Identifiquei de imediato a película que passava: abutres em pouso sobre pedras costeiras, mulher encoleirada por duas mãos algemadas, mar brilhando como estilhaços de cristal, cineasta que filma desde o alto de um poste a estrada sem asfalto, mulher costurando em sua máquina, mulher caminhando com cesto de compras pela cidade arruinada, câmera que dá voltas sobre o próprio eixo, mulher contemplando o oceano desde cima das pedras, Carlitos na tela metacinemática em diálogo com bocas cariadas, homem trançando com os dedos dois palitos de madeira, coqueiros e mata inclinados à direita pela força de ventos praianos, presença da cruz multiplicada no cemitério, barcos em repouso na areia, pescadores tecendo redes, ondas que quebram na margem, lata vazia sem água, água que ainda escorre em forma de lágrimas, mar rebento, tempestade, homem e mulheres em trio sentados num bote à deriva, por vezes remam desesperadamente, em outras deitam na proa encostando os dedos na água, sem saberem como escapar da morte vindoura. Era Limite de M. Peixoto.

Havia assistido ao filme Limite numa exibição realizada na Cinemateca de Bolonha fazia poucos anos. Se tratou de um evento em comemoração à restauração do filme (que é originalmente de 1931), feita com o auxílio de um bem-sucedido cineasta brasileiro e de fundos internacionais de preservação cultural. Como abertura aos trabalhos, passaram também um documentário sobre o próprio M. Peixoto, onde se podia vê-lo discorrendo, em voz aristocrática de um português já perdido no tempo, sobre o seu caráter na época em que realizou a obra: “Eu tinha tão pouca idade e praticamente nenhuma experiência” – afirmação que soa plausível, já que Limite era sua primeira aventura cinematográfica, M. Peixoto vivia num país com pouca herança audiovisual – o Brasil dos anos 1930 – e ele na época das filmagens havia recém-transposto a barreira dos vinte anos, como bem assinalou, durante o documentário precedente, outro diretor, C. Diegues (que mais tarde viria a publicar um importante texto de M. Peixoto (?), sobre o qual falarei adiante). A aspereza da aparência de um M. Peixoto já velho, explicando o próprio filme, um produto da juventude, somente era comparável àquela da igreja perdida no tempo rural mexicano, na qual agora me encontrava ao lado de um desconhecido clérigo, revendo o filme que pela primeira vez soube da existência em Bolonha. Estive por sorte naquela cidade italiana na época em que restauraram Limite, pois queria me sentar como ouvinte em certas disciplinas na universidade. Por questões que agora não possuem mais importância, me atrasei para a apresentação na Cinemateca, encontrando a sala quase lotada, e tive que contar com a boa vontade de uma das organizadoras, que me conseguiu um lugar no canto direito da primeira fileira, ainda que tivesse que assistir ao longa-metragem com minha cabeça inclinada. Perdi a fala dos restauradores, mas ainda consegui ver o documentário inicial sobre M. Peixoto, seguido de sua obra Limite exibida na íntegra, isto é, quase em sua íntegra, pois um trecho se julgava definitivamente perdido, devido à deterioração da película, que ficou anos jogada ao descaso pelas autoridades. Esse fragmento perdido, no qual o homem, que está no barco à deriva, presta socorro a uma das mulheres, na versão que pude assistir na Cinemateca, estava substituído por um letreiro que informava o público da impossibilidade de recuperá-lo. Contudo, o mais admirável é que, quando vi o filme já pela segunda vez, agora naquela igreja mexicana, o sacerdote não projetava a versão restaurada de Limite. Se tratava de outra e diferente cópia, que inclusive continha o extrato que os especialistas consideravam danificado, de impossível reparo. A cena, em que no barco o homem corre em assistência a uma das mulheres, estava lá e sem a substituição pelo letreiro dos restauradores, mas em perfeito estado, captada em todas as nuanças da película de tipo pancromática, com sua escala plena de cinzas. Olhei em direção à porta de saída da igreja e vi a paisagem exterior do México profundo chamuscada por uma fina garoa. Lembro-me então de ter meus braços levemente molhados. Talvez, o impacto que me causou aquele templo católico foi tamanho que não percebi a chuva rala incidindo enquanto me deparava com a sua porta principal. Esse detalhe misturou-se à impressão que tive quando víamos o mar de Limite na capela projetado: ele brilhava em seus pedaços igualmente às gotas que ainda se equilibravam sobre meu corpo, e eram ambas, as superfícies do mar e do meu corpo, como metaforizou M. Peixoto naquele documentário, “pequenas partículas d’água como se fossem átomos brilhantes”. Permaneci, assim, extático até o final da projeção. Aguardei as lentas trocas de rolo, até a última, efetuadas pelo sacerdote. Enxerguei, por fim e por uma vez mais em minha vida, os urubus alçando voo desde as rochas, encerrando a peculiar narrativa. O sacerdote desligou o aparelho. Caímos numa densa penumbra, que somente não era total graças aos raios de luz que insistiam em penetrar desde o vão fundamental. Nos olhamos mutuamente por entre as rodas do projetor, que já não mais estalava em seu compasso, para que eu lhe perguntasse:

– Como tem o senhor uma cópia de Limite

– Observo, pelo sotaque, que falo com um provável patrício do realizador de tal película. Seja bem-vindo. E lhe explico. Essa cópia, que recém-assistimos, me foi entregue pelo arcebispo da Arquidiocese de Iucatã, M. Tritschler, de quem fui por felicidade discípulo. Era um homem sem dúvida sábio e culto, ainda que, de maneira acertada, e como pode imaginar, conservador. Enfrentou inúmeros entraves políticos, necessitou inclusive se exiliar durante o mando dos socialistas, mas que pôde terminar os seus dias à frente da Catedral de Iucatã, em Mérida. Percebeu em mim um interesse desmedido pelo cine, mas, em vez de me podar, fez questão, creio eu, de encorajar essa minha curiosidade, pois, logo antes de sua morte, me presenteou com esses rolos do filme, um gesto fraterno por minha ordenação.

– E como conseguiu o arcebispo esse material?

– Me contou ele que, nos anos 1930, conheceu um americano de nome H. Kimbrough, que intermediava a produção de uma fita para um cineasta soviético. Esse americano e o arcebispo se levaram muito bem, apesar de um pequeno traço amoral de H. Kimbrough, como me dizia, visto que o americano era levado à bebida. No entanto, compartiam certos ideais. Creio que a ascendência germânica do monsenhor M. Tritschler ajudou nessa amizade, deveriam se ver como espécie de parentes anglo-saxões. Ficaram tão próximos que o arcebispo convidou o americano para que ficasse num dos quartos de sua residência oficial, em vez de num hotel com o resto da equipe, e permitiu que utilizassem o sótão para guardar em segurança o que necessitassem. Evitariam, desse modo, qualquer perda ou roubo de seus equipamentos. Parece que esse cineasta soviético tinha interesse nas igrejas de Mérida e também nas touradas: aparentemente se quedou fascinado por Iucatã. Deslumbrava-o que nos ingressos para eventos com os touros se estampasse a imagem da Virgem de Guadalupe. Ficou amigo de D. Liceaga, um dos grandes matadores daquele tempo, que faleceu não faz tantos anos. Li, em seu obituário, que partiu como um mito, aposentado no mesmo ano da Revolução Cubana, mas não sem antes, na Espanha, abater um animal de quase uma tonelada. Apaixonado por essa exibição de enfrentamento com a morte, o cineasta soviético se deteve com a pequena equipe por um bom tempo na cidade. Filmava incansável a tauromaquia. Mas, ao que me consta, houve algum desentendimento sério entre ele e H. Kimbrough, e de supetão todos do grupo abandonaram Mérida, deixando para trás alguns objetos na casa do monsenhor M. Tritschler, como esse recipiente com os rolos de Limite. Eu, por minha vez, enquanto prestava serviços à Santa Sé e antes de ser transferido para terminar os meus dias de pregação neste povoado, comprei o projetor que pertenceu a uma antiga casa de espetáculos que faliu no D.F. e assim o utilizo para trazer à luz o regalo do arcebispo.

O sacerdote me convidou, então, para averiguar o caixote de madeira que continha as latas com o filme. Vistoriei o seu interior, e, sob a tampa de uma delas, estava colado pela quina esquerda uma folha de papel já envelhecida, daquelas que de tão ressecadas não mais se dobram, pois, sem elasticidade, quebram ao simples toque distraído. Me acerquei do material e vi que se tratava de uma lista, com marcações cronológicas que procediam do scenario, acompanhadas de títulos de músicas ao lado do nome de seus respectivos compositores: Satie, Debussy, Stravinsky, Ravel… Deveriam ser as instruções originais para o acompanhamento musical de Limite (o que se escutaria junto às imagens), pois se tratava de um filme silente, sem banda sonora; logo, o áudio precisava ser sincronizado manualmente e em tempo real por meio de toca-discos – como apontou M. Korfmann – ou, ainda, por orquestra ao vivo, maneira escolhida pelo músico escandinavo B. Wesseltoft mais tarde. O sacerdote, entretanto, parecia ignorar deliberadamente aquelas indicações no papel octogenário (talvez de punho do próprio M. Peixoto?), pois, ao menos na projeção que tive a oportunidade de assistir, ele se interessava somente nas imagens, e o som que reverberou pela nave da igreja foi apenas o estalado um tanto metalino das engrenagens. Contudo, o que mais me chamou a atenção foi que, nessa folha de papel, por cima das designações das músicas e seus compositores, se achava escrita em russo, naturalmente com outra ortografia, que revelava ser o seu autor uma pessoa alfabetizada em cirílico, a seguinte nota: “недостаточно слаженный”, o que pude de imediato traduzir por “insuficientemente construído”.

– De quem é essa observação? – perguntei ao sacerdote, apontando com o dedo a pequena frase em língua eslava.

– A julgar simplesmente pelo que observo e, claro, pela história dessas latas, diria que tal comentário vem do próprio cineasta soviético, não lhe convenceria? Essa folha, que deve ter sido enviada a ele junto com os rolos de película, contém, como você já pôde entender, um encadeamento de músicas que nunca tive vontade de tocar. Para mim, esse filme é um conjunto iconográfico, que fala por si só, apenas com a coragem das imagens. Limite é uma obra estritamente religiosa. Ainda que poucos assim a entendam. Veja eu, que a exibo aqui nessa igreja e sequer atraio a atenção dos meus fiéis. Estou sempre sozinho quando a assisto. Exceto hoje. Acompanhado de você, um viajante estrangeiro. 

Não me surpreendeu em nada que o filme não instigasse os moradores daquele povoado. Era um trabalho que se pretendia vanguardista, ou, como uma vez o definiu seu próprio diretor M. Peixoto: Limite era “puro estilo” (na verdade, houve discussões sobre se foi mesmo M. Peixoto quem definiu assim a própria obra, ou se aquela expressão, “puro estilo”, fora em realidade cunhada por um cineasta soviético, que supostamente havia tido contato com o filme, fato esse que obviamente me levou de volta a discorrer, junto ao sacerdote, sobre a nota em russo pregada na lata).

– S. Eisenstein – pronunciei aquele sobrenome como aprendi nas aulas de língua, /eɪzeŋʃteɪŋ/; e não /aɪzeŋstaɪŋ/, como costumam, me parece que erroneamente, dizer no Ocidente. – S. Eisenstein é o diretor que veio a Mérida, filmar as igrejas, as touradas, as ruínas…

H. Kimbrough foi realmente o seu produtor: racista e meio alcoólatra. Tentaram realizar um filme monumental no México, que nunca ficou acabado e que abriria com uma tomada de Chichén Itzá, essa pirâmide maia, hoje apenas parque turístico de Iucatã, como se sabe.    

– Não estou frente a um leigo – compreendeu o sacerdote. – De fato, o cineasta soviético de quem eu falava, e a quem segundo os indícios pertenceu tais latas com Limite, esquecidas no sótão do arcebispo M. Tritschler, se trata muito provavelmente de S. Eisenstein. Um homem apaixonado, como você mesmo trouxe à luz, pelas ruínas.

– Sabia ele da existência de Uxmal?

– Acabei estudando que inclusive visitou tal sítio arqueológico.

– Eu tinha que ir a Uxmal. Me dirigia para lá quando, por descuido, terminei aqui, na frente dessa igreja rural. Mas, ao descobrir essa cópia de Limite e especialmente a nota de S. Eisenstein, me sinto agora como um daqueles etnomusicólogos das novelas de A. Carpentier, que ao penetrar nos labirintos da floresta tropical, termina por compreender, na fundação de uma vila, a colonização da América e, no lamento à morte de um indígena, o começo da música entre os seres humanos. Eu encontro, nesse povoado, a origem do cinema como hoje o conhecemos. E não apenas isso: graças ao senhor, desvendo também um mistério da história recente, que não posso deixar de lhe contar antes de partir em regresso, com o ônibus das cinco. Será que poderei ainda ver a topo da Pirâmide do Adivinho desde a janela do meu veículo?

– Creio que, quando passar de volta por Uxmal, já será penumbra. Mas, se quiser tomar a condução de retorno a Mérida, devemos sair já à parada, pois é tarde. Eu, com prazer, lhe acompanho até a porta do ônibus. Poderá, assim, compartilhar comigo essa tal história, a solução desse enigma, durante a caminhada.

Ele se levantou, correu minha mão como um pai e começou a me guiar para fora da nave. Ainda garoava e, por essa razão, o sacerdote abriu um guarda-chuva negro, que possuía largura suficiente para nos cobrir com justeza, logo que saímos da igreja. À medida que andávamos, unidos para dificultar o efeito da água que caía, lhe expliquei, em primeiro lugar, que a reprodução que ali existia do filme de M. Peixoto era extremamente valiosa. Que se acreditava mundo afora que somente uma cópia de Limite sobrevivera à ação do tempo e que a haviam acabado de restaurar em Bolonha. Mas, mesmo com toda a tecnologia atualmente disponível, um pedaço se mostrou sem qualquer possibilidade de recuperação, e ainda outras partes da película ficaram com as laterais contaminadas por manchas pretas e riscos, o que diminuía bastante a sua qualidade de exibição. O que havia do filme naquele vilarejo, porém, estava incomparavelmente em melhor estado, tudo completo e nítido. Talvez, especulei, o clima estável de Iucatã tenha contribuído para a preservação daquela cópia mexicana, provavelmente em nitrato, ajudado pelo abrigo de tamanha igreja, onde graças ao seu material de edificação e à sua amplitude, a temperatura interna se suporia mais constante. Em segundo lugar, e agora adentrando de fato ao mistério que se esperava resolvido, o termo em russo que observamos anotado sobre as latas de Limite, e que dizia “insuficientemente construído”, o qual acabávamos também de atribuir a S. Eisenstein, era exatamente o contrário do sentimento que o próprio M. Peixoto nutria por um de seus livros. Se tratava de uma coleção poética publicada em 1931, mesmo ano do surgimento de Limite, e que, de acordo com os apresentadores da reedição póstuma de 1996, A. & S. Mello, foi abandonada pelo autor com mínima distribuição, porque se decidiu que o texto era “demasiadamente construído”. A coleção foi resenhada, na época, por ninguém menos que M. Andrade, que pediu atenção para a espécie de “lirismo psicológico” que pairava sobre M. Peixoto em comparação com os outros poetas de seu tempo (recitei ao sacerdote, então, um poema do livro, que discorria sobre os sons de tambores e uma dança de origem africana, mas este apenas me respondia “sim, sim…” enquanto caminhávamos… não me importei e segui meu raciocínio). Agora penso se não é esse mesmo lirismo psicológico o que desagradou S. Eisenstein, para que chegasse a escrever aquela nota. Mas eis, então, o mais interessante: na década de 1960, apareceu numa revista brasileira chamada Arquitetura, onde então trabalhava C. Diegues, um texto assinado pelo próprio S. Eisenstein. Era um artigo altamente elogioso a respeito de Limite. O diretor soviético definia M. Peixoto de “cérebro-câmera” para cima, o elevava a quase mito. Porém, mais tarde, se descobriu que S. Eisenstein nunca havia em realidade escrito aquele texto. O artigo havia sido forjado pelo punho do próprio M. Peixoto. Este último o inventou para levantar a reputação de sua carreira cinematográfica, que andava meio em baixa. Inclusive, muitos intelectuais importantes do meio cinematográfico dizendo até que ele nunca sequer havia feito um filme, que Limite jamais havia existido, como afirma M. Korfmann. A fim de provar não somente que o filme sim existia e que, além de tudo, representava uma das maiores criações da história do cinema mundial, M. Peixoto fabricou da sua cabeça o suposto texto de S. Eisenstein. Pense só nesse caso hipotético: alguém fabrica uma história de que dirigiu no passado um grande filme e, depois, para dar veracidade àquela artimanha, produz textos inautênticos de cineastas canônicos do estrangeiro sobre o seu próprio trabalho, o que obriga a qualquer estudioso local minimamente sério a também comentar sobre esse filme mesmo sem nunca o ter assistido, sob o risco de ser tachado de inculto. Um golpe e tanto, não? Todavia, Limite de fato existiu. Mas o texto de S. Eisenstein é pura invenção. E não parece engraçado que o ensaio apócrifo atribuído ao cineasta soviético tenha sido publicado numa revista cujo título seja Arquitetura? Olhe bem: M. Peixoto executa uma falsificação, um texto sobre um filme que se encontrava quase em ruínas, que críticos praticamente julgavam como mentira, pois a cópia (que, até então, se pensava ser a única) estava tão degradada que ficava difícil a sua apresentação para uma audiência, e, por último, divulga o artigo num veículo que tem por nome a arte de construir. Enfim, se chegou à conclusão de que o mais provável era que S. Eisenstein em nenhuma oportunidade havia visto Limite, que nunca pôs os olhos sobre aquelas imagens. No entanto, M. Peixoto dizia que o cineasta soviético o havia assistido durante uma mostra em Londres, na década de 1930. Acontece que M. Peixoto ficou conhecido também por espalhar aos quatro ventos a ocorrência de projeções fantasmas. Segundo ele, Limite havia sido exibido igualmente em Paris, Nova Iorque e não sei mais onde. Tudo criação – de acordo com o historiador F. Fernandes. Menos uma: aquela que contou com a presença de O. Welles, que tem que ser levada a sério, um fato corroborado com detalhes pelo crítico J. C. Avellar. Pois, conta a história, que o diplomata, crítico de cinema e músico V. Moraes organizou, em 1942, uma passagem de Limite para celebrar a visita de O. Welles ao Brasil. E diferentemente da nota deixada na lata de Limite por talvez S. Eisenstein, o cineasta estadunidense teve a “melhor” das impressões. V. Moraes notou a “sinceridade do que dizia nos olhos”. Contudo, essa “opinião” favorável pode haver sido apenas um gesto educado de O. Welles para com o seu anfitrião brasileiro, ou apenas uma invençãozinha do próprio V. Moraes – uma vez que este tinha a missão de escrever a notícia para o jornal em que era colunista, e colocar um mau julgamento daquele grande diretor, depois de tanta “obstinada teimosia” e “sacrifício” para fazer o “milagre” de exibir Limite, teria sido vexante – ou, então, foi tudo mesmo mais um deliberado engano promovido por O. Welles que, por sua vez, sabidamente no início de sua carreira anunciou no rádio, com inteira “sinceridade”, que alguns marcianos estavam invadindo a cidade, ou, ainda, na pior das hipóteses, ele ficou tão maravilhado com Limite que se deixou contaminar pelo modus operandi de M. Peixoto e, por essa razão, não conseguiu mais terminar o próprio filme, projeto que o havia trazido ao Brasil e deveria se chamar, não sem particular ironia, É tudo verdade (mais sobre o não concluir filmes, dentro em pouco). Ainda que o episódio de O. Wells seja o que se poderia chamar de aceitavelmente verossímil (à parte do que há nele de importante, o seu verdadeiro juízo sobre Limite), M. Peixoto era um obcecado em imaginar a própria vida. Ele provavelmente engendrou até o lugar de seu nascimento. Dizia que havia vindo ao mundo na cidade simbolista por excelência, isto é, em Bruxelas, na Bélgica, quando o mais provável, fosse um parto na Tijuca, aquele subúrbio de pouco glamour do Rio de Janeiro. E não invento nada disso. É fato trazido à tona e confirmado por E. Castro, seu biógrafo, e corroborado por L. C. Morais, quem deu a M. Peixoto o importante, pelo menos para mim, título de “pirata” (outra estranha questão biográfica trazida por estes é a data oficial, se é que se pode falar em qualquer coisa “oficial” dentro da história de vida de M. Peixoto, do seu nascimento: 25 de março de 1908; às vezes M. Peixoto insistia no ano de 1918, o que significaria ter dirigido o filme Limite com doze ou treze anos de idade; mas 25 de março de 1908 é o mesmo dia de nascimento do cineasta britânico D. Lean, o mesmo de Doutor Jivago – ora, quis ele não deixar nenhum rastro de desconfiança sobre a sua genialidade ao construir uma data de nascimento idêntica àquela de quem é por outros considerado como o maior diretor do cinema comercial?). E por falar em “pirata”, M. Peixoto passou grande parte de sua vida adulta num local chamado Sítio do Morcego. Lá, havia uma casa construída em 1629 (segundo lenda) pelo pirata espanhol J. Lorenzo (tudo parece vir de lendas em M. Peixoto). Mas é uma lenda bem típica para esse tipo de caráter: ele, diretor que engenhosamente se apropriou da autoria escritural de outros cineastas. E, mais típico ainda, é que tenha decidido habitar uma ruína. Passou a vida tentando salvar aquela construção seiscentista, então um monte de pedras, até que ele mesmo se deteriorou física e financeiramente. Além disso, gastou boa parte da herança familiar procurando um tesouro enterrado naquelas terras pelo pirata (de verdade) J. Lorenzo, como consta numa nota de F. Fernandes. Sobre esse caráter forjador de M. Peixoto, em especial se referindo ao texto atribuído falsamente a S. Eisenstein, S. Mello – talvez a pessoa que mais tenha se aproximado de M. Peixoto e de Limite, pois fotografou manualmente cada um dos quadros do filme para criar, das imagens em movimento, um “mapa”, uma “partitura” – atribui esse “fake do amigo a sua “pessoa ingênua”, com “esperteza de uma criança”, como se fosse ele uma figura um tanto desligada das questões práticas da realidade. Ainda que não duvide da ingenuidade de M. Peixoto, ouso abrir outro caminho de interpretação, pois não creio totalmente que o fake tenha sido “um problema secundário” e “sem interesse”. Em meu exame, a fabricação, a crença no que alguns chamariam de ilusão, é o método em si de M. Peixoto, e nisso se encontra a sua propriedade basal e singular como artista. No fim das contas, o próprio Limite é em certo sentido um ato de cópia e pirataria. M. Peixoto teve a ideia para o scenario do longa-metragem ao ver uma fotografia de A. Kertész impressa na capa da revista francesa Vu nº 74, de 14 de agosto de 1929 (dou liberdade para a conferência dessa informação junto ao que escreveu J. C. Avellar). Quando se compara aquele retrato de A. Kertész com um dos primeiríssimos planos de Limite, é perceptível que se trata de uma repetição em seus mínimos detalhes: fundo todo negro, mulher por detrás abraçada ao redor do pescoço por dois antebraços de homem, que na ponta apresentam mãos encadeadas. E não para por aí: ele assinou o scenario como filme a ser dirigido por L. Gonzaga, que em realidade era um cineasta brasileiro que se chamava A. Gonzaga, indicando ao menos evidente falta de intimidade entre os dois. A. Gonzaga educadamente rejeitou a proposta, como se pode depreender da segunda introdução de S. Mello feita para a reedição de 1992 do scenario original. Ademais, Limite é seu primeiro e único filme. Assim, quando o fez, não era ainda diretor de cinema, sabia pouco da técnica, do que era o todo de uma produção, desde a sua concepção ao lançamento, passando pelas rodagens. Ou seja, em Limite, ele foi um fake de cineasta; e, com virtuosidade absoluta, se mostrou mais competente do que teria sido qualquer diretor de verdade. Talvez por essa razão, depois daquela empreitada, já oficialmente transformado num homem de cinema, com obra exibida publicamente, M. Peixoto nunca mais pôde concluir outra. Aqui, então, é onde creio morar a semelhança (e também a diferença) entre ele e S. Eisenstein: à parte o fake que os unirá pela eternidade, ambos possuem filmes que são de certo modo escombros, restos de sonho. O cineasta soviético não conseguiu terminar o projeto que o trouxe a Iucatã, Mérida e Uxmal: o épico sobre o país, cujo título seria Que viva México!. Voltou de mãos vazias ao frio de sua terra e permaneceu alguns anos de luto, antes de conseguir completar outro filme, sofrendo talvez da síndrome inversa de M. Peixoto: se descobriu um fake, quando antes se considerava diretor de verdade. Mas muito disso cambia com a descoberta realizada nesta igreja. M. Peixoto com efeito enviou ao Primeiro Mundo uma cópia do filme, que chegou às mãos de S. Eisenstein. Isso agora é fato. E, cronologicamente, pode se encontrar algum sentido. Limite é produzido entre a primavera e o início do verão de 1930 (em dezembro aparecem os primeiros fotogramas na imprensa, segundo E. Castro; o término da montagem foi em janeiro de 1931, diz S. Mello; A. Vasques, no entanto, assegura fevereiro, ou até mesmo março, mas ressalva que a “trajetória” de Limite está prenhe “de informações que não chegam a se confirmar”): o lançamento público foi em maio de 1931. S. Eisenstein, por sua vez, deixa a União Soviética em excursão pelo Ocidente em 1929, chegando à Califórnia no primeiro semestre de 1930, de contrato assinado com os Estúdios Paramount para dirigir um filme. Contudo, incapaz de trabalhar com os produtores americanos, as partes rompem o acordo, e S. Eisenstein parte em dezembro de 1930 para o México, com o intuito de realizar um trabalho independente, mas nem por isso pouco ambicioso, o dito Que viva México!. Ele permanece no país até fevereiro de 1932. Penso, então, que M. Peixoto, sabendo pelos jornais da estadia de S. Eisenstein na América do Norte, lhe tenha enviado uma cópia de Limite logo após o término da montagem, talvez com alguma ajuda de pessoas conectadas aos Estúdios Paramount. Digo isso, pois, da consulta que fiz ao texto de J. C. Avellar, me lembro de ter a atenção captada por uma anedota ocorrida durante os preparativos para a estreia de Limite: as imagens em movimento da primeira metade do século XX exerciam tamanho poder sobre o comportamento das massas, que T. Rombauer, então administrador de um cinema no Rio de Janeiro, exigiu uma espécie de seguro contra a reação do público para poder exibir o filme, depois de ter sido abordado por A. Gonzaga a respeito de M. Peixoto. E poderia adivinhar o nome da sala de cinema onde tal exigência foi concebida? Cine-Theatro Paramount, exatamente uma sucursal brasileira da empresa pela qual S. Eisenstein esteve antes contratado. Ainda que Limite não tenha estreado naquele Cine-Theatro, mas sim pelo Chaplin Club no Cinema Capitólio, e ainda que S. Eisenstein já estivesse no México empreendendo o seu projeto independente, talvez por aí tenha surgido algum canal para que a película chegasse às mãos do cineasta soviético (mesmo que as datas sejam justíssimas, penso agora). De todos os modos, S. Eisenstein, confirmado pelo que vi há pouco nesta igreja, teve uma cópia entre os seus pertences durante a sua estadia no México. Contudo, ao que se deduz a partir da nota em russo, não gostou nada do que viu. S. Eisenstein talvez tenha sentido em Limite, que usa de modo extensivo o cross-fade e a repetição de imagens, uma tremenda falta de ritmo pulsante e impertinente que ele mesmo aplicava às suas montagens: como alto exemplo, temos o filme Outubro. Não sei se M. Peixoto recebeu alguma correspondência crítica do cineasta soviético. É bem provável que não, dado o abandono desse material em Mérida: o que não o impediu de usar o silêncio de S. Eisenstein a seu favor. E será que, mesmo não tendo gostado da obra, Limite influenciou as gravações de Que viva México!? M. Peixoto era incontestavelmente um “cérebro-câmera”, ainda que S. Eisenstein não o tenha percebido sequer remotamente assim. Por outro lado, o próprio M. Peixoto, incorporando o cineasta russo, se visualizou como sujeito-máquina. No pouco que se tem gravado dele, principalmente nos documentários de S. Machado e  R. Solberg (interessante que M. Peixoto tenha se tornado, talvez mais prolificamente, personagem em vez de diretor de filmes) pode-se testemunhar, corroborado pela excitação do depoimento de um dos próprios diretores, como M. Peixoto via através de uma lente cinematográfica. Falava, mas sua fala possuía tom narrativo. Isto é, não descrevia: lançava imagens aos ouvidos do interlocutor. Talvez a abordagem cinemática de M. Peixoto, mais emocional, psicológica, tenha exercido algum impacto sobre S. Eisenstein, ainda quando de maneira inconsciente – transparecendo nos aspectos ligados à reflexão acerca da morte. É verdade que ambos os filmes têm na presença da morte o seu ponto fundamental. Contudo, o que interessava a S. Eisenstein era caçoá-la, algo bem distinto da aproximação séria de M. Peixoto. Ademais, nas duas obras, a cruz é um símbolo estável e visualmente importante (como destaca L. C. Morais e M. Korfmann, a respeito de Limite, e C. Dashiell, sobre o produto soviético). Por fim (já nos aproximávamos do ônibus, o sacerdote e eu), o homoerotismo fálico é algo que se deixa ostentar. Em S. Eisenstein, nas armas pontiagudas do matador nas touradas (como bem observou M. Salazkina) e, em M. Peixoto, há na cena do cemitério aqueles dois cigarros quase se tocando boca a boca. É razoável, portanto, que o rechaço de S. Eisenstein ao filme de M. Peixoto foi devido a uma forma estranha e inconsciente de autocrítica, já que o primeiro se viu em conflito com as concepções apresentadas em seus trabalhos anteriores.

Ao chegarmos no ônibus, o sacerdote soltou o meu braço. Desceu o guarda-chuva, enquanto eu abria a carteira para recorrer algum dinheiro a fim de pagar o bilhete de regresso. Fiz a compra diretamente com o motorista, que aguardava na porta de embarque. Me surpreendeu ao me negar qualquer recibo. Queria ele ficar com o dinheiro e não repassar nada à companhia? Era provável. Não quis entrar em nenhuma discussão com aquele sujeito. Eu me sentia feliz. Não havia visitado Uxmal, mas acabei por encontrar Limite. Quando virei o corpo para me despedir do sacerdote, esse já caminhava rumo à igreja de aspecto rural, se preparando para subir a inclinação do morro. Necessitei falar em voz elevada para que o som lhe alcançasse. Agradeci pela companhia e, também, pelos ensinamentos. Prometi que, chegando a Mérida, e depois a Puebla, seguiria com a minha investigação sobre Limite, que por fim se tornara séria, e me colocaria em contato com alguns conhecidos para organizar uma expedição de volta àquele povoado. No entanto, não recebi resposta alguma, exceto por seu braço esquerdo que levantou novamente o guarda-chuva, para depois fazer um movimento pendular com o objeto, como se fosse uma cabeça que me dizia “sim, sim…”. Entrei no ônibus e me dirigi ao mesmo assento que ocupara na partida. À medida que o veículo se despedia, pude ver novamente aquela praça de terra, o edifício rosado que abrigava a banca metálica do pedreiro que me serviu o sumo de pitaya e a igreja incrustada no topo da colina, agora com um ponto negro que a subia desapressado. Procurei me manter desperto. Quem sabe com alguma sorte e com a lua talvez cheia, ainda tivesse a oportunidade de avistar a ponta máxima de Uxmal. Mas, cansado de todo o esforço e excitação mental que me foi aquela anterior descoberta, me vi em breve outra vez adormecido. Não pude deixar de cair em sono intenso. 

Fui despertado em cena idêntica. O motorista me sacudindo os ombros, com a boca esticada para os lados, num ato de fingida simpatia: me desejava fora do ônibus assim que possível. O encarei com a visão mais uma vez embaçada. Porém, me dei conta de que aquele episódio não era apenas algo semelhante que se repetia duas vezes no mesmo dia: se tratava do mesmo tempo acontecendo pela segunda vez numa vida.

– Onde estamos? – busquei saber.  

– Em Mérida. Você aparentemente dormiu na ida e na volta.

***

Mas o que verdadeiramente significou aquela frase do motorista? Que eu fiquei dormido no caminho de ida, me despertei ao chegarmos no povoado e depois caí no sono novamente enquanto voltávamos a Mérida? Ou então que dormi sem parar, como um desmaiado, não acordando sequer na pausa entre as viagens de partida e regresso…? Depois de refletir por um bom tempo ainda na rodoviária, pensei que a segunda opção fosse a mais plausível, graças também à sensação de que experimentei um déjà vu ao ter os olhos abertos. Assim, logo quando me pus a caminhar de volta ao albergue, com o intuito de arrumar minhas coisas para sair no dia seguinte ao encontro de minha diretora de tese em Puebla, cri que, na verdade, fui acordado pelo motorista somente uma vez, ao final. O despertar principal, na frente daquela praça sem paralelepípedos no interior de Iucatã, não passou de um acontecimento dentro de longo sonho: um sonho em que perdi a chance de ver Uxmal, mas ganhei um passeio por um povoado desconhecido, com sua igreja rural, seu sacerdote de negro, sua cópia de Limite em perfeito estado guardada em latas, uma delas com o comentário em russo de S. Eisenstein. Fazia todo o sentido racionalizar aquilo que vivi como apenas um sonho forte, um quase delírio talvez potencializado por algum cogumelo tóxico que me havia presenteado a garota belga, cogumelos selvagens de San Cristóbal de las Casas, com os quais cozinhei minha última refeição antes de partir – o que poderia ter me abatido na poltrona do ônibus e gerado acesso imediato a partes profundas de meu inconsciente. Pois, ela ostentava a mesma cidadania que a inventada por M. Peixoto, ambos assim provenientes (?) da Bélgica. Eu deveria estar me sentindo culpado por havê-la abandonado em Tuluum: uma decisão porventura egocêntrica ou mesmo escapista, não seguindo com o que se mostraria um potente romance. O poema de A. Ginsberg evocando Uxmal, que a garota belga me havia dado de recordação durante nossa despedida, me marcou com profundidade e criou em mim a obsessão de visitar aquelas ruínas, para talvez expiar a culpa e me reconectar de forma simbólica a ela. Eu sabia perfeitamente que S. Eisenstein havia estado naquela região com o intento de concluir um filme, projeto que fracassou rotundamente. Ademais, provavelmente me sentisse eu mesmo um fake, alguém à beira de um desastre de iguais proporções, na minha cabeça um tanto maníaca. Estava instalada a crise que sói abarcar alguém bem no meio de um doutoramento: fase em que a insegurança de ter que escrever algo definitivamente original e de forma independente sempre ataca. Assim, o revés abismal de S. Eisenstein representaria o meu prognóstico. Havia também aquelas críticas, que eu julgava conservadoras, do dito professor sobre o meu ensaio, me acusando de citar num mesmo parágrafo M. Blanchot e J. Ortega. Portanto, me questionava, então, até que ponto uma mente anacrônica como a minha poderia sobreviver entre tanta (pretensa) seriedade que costuma desabar de certas barbas. Mesmo que conscientemente eu soubesse que aquele ataque se deveu mais ao fato de que sempre há que se criticar alguém, e o professor, sabendo-me ainda doutorando, deixou que o seu veneno escorresse sobre a pessoa que pensava ser menos propensa a lhe fechar portas futuras. Por essa razão, me sentindo uma espécie de impostor, não poderia haver em minha memória nada de tão fake quanto o texto de M. Peixoto, firmado como se proviesse da pena de S. Eisenstein. Ou ainda: a inclusão de M. Peixoto como personagem naquela viagem seria uma forma de lidar com minhas próprias inseguranças. Tinha medo de terminar a vida como ele: velho, solitário e desacreditado. Assim, “descobrir” uma cópia perdida de Limite, uma que foi sobretudo vista por S. Eisenstein, reabilitaria de certa forma M. Peixoto e, todavia, o mais importante, alçaria a mim mesmo como grande investigador, por trazer, ao mundo conhecido, tal achado. Eu provaria o meu valor dentro do meio especializado, o que em tese fecharia o mapa de conexões do meu inconsciente selvagem. Uma possível toxidade dos cogumelos recebidos da garota belga também explicaria a hipertrofia temporária de meus registros de leituras, demonstrada junto à conversação com o sacerdote, pois lá me lembrei de inúmeros nomes de autores de textos e de documentários (que, por sinal, os retenho até hoje, apesar de ter esquecido de outros detalhes referentes ao restante da viagem), tudo em seus pormenores – de minha mente procedia até número de páginas ou, pelo menos, se a citação que reproduzia estava à direita ou à esquerda nos livros ou revistas que ao longo dos últimos anos vinha esparsamente lendo sobre Limite. Desde aquele encontro entre o filme e eu na Cinemateca de Bolonha, incorporei algum material à biblioteca de minha casa, a partir de impressões e cópias feitas do acervo da Universidade de Nevada, atividade que levei como hobby até o final da primavera daquele ano, antes de minha arrancada ao México.

Desse modo, era mais lógico e confortável que eu enfrentasse os eventos ocorridos naquele vilarejo de Iucatã como um mero sonho intensificado. Durante os poucos anos que se sucederam até aqui, mantive para mim mesmo aquela versão da história, enquanto tenho vivido a maior parte de meus dias em Las Vegas (essa cidade que enche a aura de alguns de grosseiro preconceito contra o meu trabalho, por possuir cassinos que me fascinam ao serem todo o capitalismo em exibição, já que penso que não se pode compreender o Ocidente do século XX –  não é possível viver a modernidade em sua plenitude – sem haver passado tempo considerável habitando Las Vegas, a observar em isolamento a Strip, ou as luzes cinematográficas da Rua Fremont). Sustentei, assim, aquela interpretação até hoje, quando já me preparo para deixar esta cidade em mudança definitiva para Toronto – pois, ao concluir meu doutorado, logrei uma oferta de emprego no Canadá (talvez a expiação provocada pelo quase delírio de Uxmal tenha gerado o seu efeito, porque de fato escrevi mais de duzentas páginas de tese, havendo defendido o seu conteúdo junto à banca e recebido o título que me faltava). Enfim, em meio a toda essa transformação em meu cotidiano, me chega, nesta tarde de segunda-feira, para ser mais exato, um correio de um pintor caribenho amigo de minha agora ex-diretora de tese. Ele me conta que escrevem um artigo jornalístico para homenageá-la, a ser publicado num periódico de extensiva circulação entre a sua comunidade. Me pergunta se por acaso não guardo alguma fotografia dela: ele sabe que eu lhe tirei muitas, ainda que seja uma mulher arredia aos retratos. Evidentemente, participar de tal tributo me faz ilusão. Como ela passou comigo um bom tempo em Puebla durante o verão do meu encontro (?) com o sacerdote, me explicando a história dos templos barrocos, e foi em época na qual eu estava mais propenso a sacar fotografias devido à viagem, não tenho dúvidas em buscar algo na minha caixa de recordações mexicanas. Lá estão os negativos de toda minha jornada: foram devolvidos em pequenos envelopes azuis pelo laboratório, revelados e ampliados no papel fosco de 4×6 polegadas. Desde que me foram retornados, nunca os tinha olhado com cautela, e já se vão alguns anos, pois devido à pressa em me colocar a todo vapor na escritura da tese, apenas os havia passado por alto a fim de confirmar que pertenciam ao material que mandei para processamento. Qual não é minha surpresa quando descubro, como a última fotografia de Iucatã, e justamente anterior à primeira de Puebla, a imagem daquela igreja mexicana existente apenas no que eu julgava ser um sonho intoxicado, a mesma que postei anteriormente nesse relato. Mas essa descoberta inicial não deixou de render maior fruto: ao examiná-la com cuidado, através de uma lupa, observo, no quadrante inferior esquerdo, um detalhe que me deixa ainda mais atônito, e que agora, através de um blowup mais contrastado, gostaria de proporcionar destaque:         

Blowup da fotografia anterior, Igreja, Povoado Desconhecido, México.

A silhueta de um homem aparece em meio à penumbra interna. Ele regressa desde a parede posterior da capela, usada como superfície de projeção para Limite. A luz que o desenha é a mesma que dá vida à película. Esse sacerdote, então, realmente existiu? Não foi fruto do delírio ocasionado pela toxidade de algum cogumelo que me foi dado de presente? Na versão integral do poema de A. Ginsberg, a voz, que desde sua “siesta” nos fala, sonha com um “kodachrome eterno”, um “souvenir” fotográfico que o leva de viagem a uma festa burguesa, mais decadente do que as ruínas maias que de certa maneira ainda emanam a grandeza de uma era. Foi esse diapositivo evocado por sua memória, de cores saturadas por um tipo químico que nos dias de hoje já não é fabricado, que o fez redigir aqueles versos. Será que o “kodachrome eterno” de A. Ginsberg em realidade existiu, ou teve serventia apenas como meio fantasmagórico para levá-lo a um sonho a partir de outro sonho? Do mesmo modo, vejo a minha própria fotografia em branco e preto, que anexo aqui como prova de uma verdade: da verdade que sonhei dentro de outro sonho que era o meu caminho a Uxmal, onde pude encontrar o único filme de M. Peixoto em sua perfeição.     

Post scriptum 

(Por questões editoriais que me agora são exigidas, trago aqui uma pequena lista do que pude identificar a posteriori em minha biblioteca pessoal [logo, isso não significa completa exaustividade] das obras referenciadas de coração [direta e indiretamente], na conversa [quase delírio?] com o sacerdote mexicano).

Avellar, J. C. O lugar sem limites / Le lieu sans limites. Cinémas d’amérique latine, n. 16, 2008.

Castro, E. Jogos de armar: a vida do solitário M. Peixoto. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000.

Dashiell, C. Eisenstein’s Mexican Dream. Cinescene.com, 1998. Acesso em: 12 out. 2012. http://goo.gl/cZqQ7t

Eisenstein, S. Beyond the stars: the memoirs of S. Eisenstein. Editado por R. Taylor. Traduzido por W. Powell. Calcutta: Seagull, 1995.

Fernandes, F. A Ilha e o Maçarico: Limite, nos caminhos de um vir a ser. Revista Estudos Hum(e)anos, v. 6, n. 1, 2013.

Korfmann, M. “On M. Peixoto’s Limite”. In: Avant-garde film. Editado por A. Graf & D. Scheunemann. Amsterdam: Rodopi, 2007.

______. M[…]peixoto.com. Acesso em: 15 jun. 2012. http://goo.gl/BHzWzn

Machado, S. Onde a Terra Acaba, 75 min., 35mm/vídeo, cor & PB, Brasil, 2001.

Mello, S. Limite, filme de M. Peixoto. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1979.

______. “Breve esboço de uma cinebiografia de M. Peixoto”. In: Limite, M. Peixoto [Catálogo da Exposição de 3 de julho a 1º de setembro de 1996]. Rio de Janeiro: MinC; Fundação Casa de R. Barbosa, 1996.

Moraes, V. Exibição do filme brasileiro Limite de M. Peixoto. A Manhã, Rio de Janeiro, 30 jul. 1942.

Morais, L. C. “M., o pirata”. In: O Estudante do Coração: ensaios sobre a arte pós-moderna. Rio de Janeiro: Litteris, 2013.

Peixoto, M. Mundéu. Rio de Janeiro: Livraria Sette Letras Ltda, 1996 [“Nota”, A. & S. Mello; “A respeito de Mundéu”, M. Andrade, publicado originalmente em Revista Nova, São Paulo, ano I, 15 de dezembro de 1931].

______. Limite: “scenario” original. Rio de Janeiro: Livraria Sette Letras Ltda.; Arquivo M. Peixoto, 1996.

______. M. Peixoto: escritos sobre cinema. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000 [organização e comentários, S. Mello; contém o texto “Um filme da América do Sul”, atribuído por M. Peixoto a S. Eisenstein].

Salazkina, M. In Excess: S. Eisenstein’s Mexico. Chicago: The University of Chicago Press, 2009.  

Seton, M. S. M. Eisenstein. Nova Iorque: Grove Press, 1960.

Solberg, R. O Homem do Morcego, 18 min., 35mm, PB, Brasil, 1979/1980. 

Vasques, A.
Nos rastros de Limite: um estudo de caso na história da preservação das imagens em movimento no Brasil. São Carlos: UFSCar, 2013.

Villalobos, R. D. Liceaga, ex torero mexicano. El País, Madrid, 5 nov. 1996.    



* Primeiramente publicado em: Lopes de Barros, Rodrigo. Ao Limite de Uxmal. Revista Desenredos, ano XI, n. 31, outubro 2019, p. 34-54. http://desenredos.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Desenredos-31-Prosa-RodrigoLopesdeBarros.pdf

Download PDF